Um dos episódios mais fascinantes da história do Brasil, a Guerra de Canudos (1896-1897) já foi tema de livros e filmes e agora é também o ponto de partida para o documentário ‘O Mar do Conselheiro’, do cineasta holandês Mendel Hardeman.
O filme ainda está dependendo de subsídios para a finalização e só deve ficar pronto para distribuição no ano que vem, mas terá uma sessão especial de pré-lançamento este mês em Amsterdã.
Lição de História
A ligação de Mendel Hardeman com o Brasil e com a Guerra de Canudos começou ainda em sua infância. Quando ele tinha 8 anos, seus pais decidiram emigrar para Carambeí, no interior do Paraná, onde ele viveu até os 18 anos, época em que retornou à Holanda para estudar.
“Canudos é uma coisa engraçada pra mim. Eu me lembro, na escola, aprendendo sobre a Guerra de Canudos e Antônio Conselheiro. Aquilo sempre me cativou bastante. E na verdade, em algum cantinho, no fundo da minha cabeça, sempre tive uma idéia de que tinha que fazer algo com essa história - já quando criança, e eu nem tinha idéia do que ia ser quando crescesse”, recorda Mendel, hoje com 32 anos.
Há três anos e meio, o interesse do menino acabou se transformando numa verdadeira paixão para o cineasta, que conta ter se encantado à primeira vista pela região do sertão. “Eu me apaixonei completamente pelo sertão nordestino e decidi fazer um trabalho lá. Desci do ônibus e me apaixonei na hora, me senti em casa. Foi como se esta história estivesse me chamando.”
O sertão vai virar mar
O documentário, em longa metragem, se baseia nas histórias de pessoas que vivem na região onde ficava o vilarejo de Canudos e utiliza os fatos históricos como pano de fundo. O fio condutor é a famosa frase de Antônio Conselheiro: ‘O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão’ – vista como espécie de profecia depois que a região, em 12 de março de 1969, foi alagada pela construção de um açude, desaparecendo embaixo d’água.
“O filme conta, de um lado, a história de Canudos no passado, que é a história de Antônio Conselheiro e milhares de sertanejos que se reuniram em volta dele e acabaram dizimados pelo exército. Passaram-se 70 anos e chegou a idéia de construir um açude no local onde havia ocorrido esta guerra, então o local virou um mar mesmo. O que é uma coisa incrível", comenta o cineasta. "No Brasil todo mundo conhece esta frase de Antônio Conselheiro, ‘o sertão vai virar mar’, mas pouca gente sabe que o local onde ele disse isso realmente está embaixo d’água hoje”, lembra Mendel.
“Antônio Conselheiro dizia isso a um povo que sempre tinha vivido no interior do sertão, a 500 quilômetros do mar. Nunca tinham visto o mar, nem sequer uma lagoa grande, ou um rio grande. O que é que estas pessoas imaginavam quando ouviam dizer que o sertão ia virar um mar? Foi aí que começou a minha procura de histórias. O filme é basicamente uma reconstrução de como estas pessoas imaginam o mar. Como uma pessoa que sempre viveu no sertão, nunca viu o mar, nunca viu muita água, e que todo dia precisa resolver o problema de ter água. Como estas pessoas imaginam o mar, como seria o mar dos sonhos destas pessoas, que tipo de histórias, lendas, mitos elas têm para contar sobre o mar e qual o significado deste mar pra elas.”
A água e os sonhos
Entre as muitas histórias colhidas pelo cineasta holandês, algumas marcantes, como a da senhora que não acreditava que o açude realmente viria e só saiu de casa quando a água entrou. “São uma série de histórias pequenas de pessoas que, juntas, formam uma história maior, que seria a história da região de Canudos nos últimos 120 anos, e qual o significado da água e dos sonhos que estas pessoas tiveram”, resume o cineasta.
Mendel Hardeman passou três meses na região de Canudos fazendo as filmagens, indo de vilarejo em vilarejo para reunir o material para o filme. Atualmente, existe uma cidade de cerca de 8 mil habitantes chamada Canudos, a 20 quilômetros da Canudos original, mas não foi lá que o cineasta encontrou os depoimentos que procurava, e sim numa área mais rural, onde muitas pessoas ainda vivem sem água e sem eletricidade, praticamente nas mesmas condições em que viviam os habitantes na época da Guerra de Canudos.
Braços abertos
Apesar de toda a precariedade na região, Mendel diz não ter encontrado nenhuma dificuldade na realização das filmagens. Inclusive com os moradores locais, que o receberam de braços abertos. “Muita gente chega lá com um carrão enorme, desce já com uma câmera pendurada no pescoço, e claro, isso assusta. Você é um desconhecido e quer algo deles, então você vai encontrar um povo arredio, com um pé atrás. Todo mundo sabe, o sertão é uma região, um povo que todo mundo se aproveita deles. Inclusive das histórias deles. E eu chegava como eu mesmo, não como um jornalista ou documentarista. Passava nas casas, conversava com as pessoas. Acho que no instante em que as pessoas notam que o seu interesse é autêntico, que você como ser humano esta interessado neles - o que a gente estava, muito -, então elas se abrem completamente. Eu achei um povo muito caloroso, muito amigável e realmente amo o povo de lá."
O período que passou no sertão foi tão especial que, segundo ele, até quando algo dava errado era para que alguma coisa ainda melhor acontecesse. “Parece que a coisa está sendo guiada por Deus, de alguma forma. Mesmo quando algo não dava certo, sempre o fato daquilo ter dado errado levava a algo muito melhor, que a gente nem podia ter imaginado. Foi uma época bem mágica.”
O documentário ‘O Mar do Conselheiro’ será apresentado para uma platéia de convidados no dia 26 de setembro, em Amsterdã, e deverá estar pronto para exibição nos cinemas em meados de 2010.



























Aquela imagem da mulher dando água para o animal dentro de uma bacia mecheu muito comigo... Uma tristeza enorme se via no olhar daquela triste mulher... Parabéns seu site é ótimo. Aquela imagem faz a gente refletir na vida. Uma dica: Pesquise na internet e leia a "Carta de 2070" faz a gente pensar em nossos erros. Parabéns novamente, muito bom
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