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Retrato de Alejandro Pintamalli

Nicarágua: amassando tortilhas ao amanhecer

Data de publicação : 6 Janeiro 2010 - 12:52pm | Por Alejandro Pintamalli (www.rnw.nl)
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Sete repórteres da Radio Nederland viajaram a vários cantos do mundo em busca de pequenos empresários que se beneficiam do microcrédito.

A seleção do candidato ou candidata para uma entrevista por ter recebido um micro-financiamento na América Latina não foi fácil. Em princípio, tive que tatear às cegas em um mar de histórias de vida. Fui nadando neste mar de perfis até avistar terra na Nicarágua.

Minha candidata é uma cliente do Pro Mujer, uma das ONGs mais importantes da região que, na Nicarágua, tem sua sede em Ciudad León, a 93 quilômetros da capital, Manágua.

Ela se chama Linda Flores e faz tortilhas - massa de milho cozida com forma circular plana, muito apreciada na América Latina. Os micro-financiamentos permitiram que ela ampliasse o espaço para produzi-las e que comprasse um forno especial. Da Holanda, telefonei para combinarmos nosso encontro.

Fui acompanhado pelo cinegrafista Paul Bergsma. Queríamos ter uma primeira impressão dela, de sua família e seu entorno. No dia seguinte, começaríamos às 4 horas da manhã, quando Linda inicia seu trabalho, amassando a bola de massa sem interrupção, até o meio-dia.

Demoramos a chegar porque foi difícil encontrar o endereço. As ruas não estão numeradas e ninguém se surpreende quando recebe indicações de ir “do colégio tal, bairro La Providencia, tantas quadras ao sul...”

Com seu marido, Jorge, e seus três filhos, Linda nos esperava com muita expectativa. As crianças atacaram os ‘stroopwafels’ (bolachas típicas holandesas, recheadas com melado) que comprei para eles na Holanda, junto com outras coisinhas, como brindes e camisetas com o logotipo da rádio para cada um deles.

No dia seguinte, saímos de madrugada, ouvindo o cantar dos galos no bairro La Providencia, pobre e belo. A primeira coisa que me surpreenderia nesta manhã de segunda-feira seriam as mulheres trabalhando desde muito cedo. A diretora do Pro Mujer na Nicarágua, Gloria Ruiz, me explicaria mais tarde que a nicaraguense é empreendedora e que o homem, “ao ver que a mulher sai adiante com seus projetos”, a acompanha.

Aproveitamos o resto do dia para filmar a cidade e seus arredores. Uma das primeiras paradas foi o ponto mais alto de Ciudad León, o forte. Queríamos ter uma imagem panorâmica, uma espécie de postal aéreo. Dois caminhos levam a este lugar. Um é um depósito de lixo. Há tanto que pouco antes de chegar três meninos nos advertiram que não era possível passar. Retomamos pelo outro caminho. Falar de ‘caminho’ é uma formalidade, porque não estão pavimentados, são formados por protuberâncias, buracos, pedras, poças d’água e montanhas de lixo. Creio que demoramos uma hora para subir de táxi. Valeu a pena capturar esta imagem de León com suas cúpulas despontando no mato que as chuvas e o calor das últimas semanas fez crescer.

A partir do dia seguinte, comendo sempre o típico frango, arroz com feijão, ovo e queijo no café da manhã, começamos o trabalho, que nos tomou praticamente uma semana. Conhecemos a realidade de Linda, nos inteiramos de como saiu da pobreza. Vimos com nossos olhos que a ONG lhes dá capacitação e atendimento de saúde. Mas o que é mais importante, as mulheres fortalecem sua auto-estima.

É preciso dizer, no entanto, que nem tudo são flores. Dois de seus filhos deixaram a escola este ano para poder ajudar a mãe no trabalho. Sua situação é um paradoxo. Sem a ajuda dos filhos, a família não consegue progredir. Mas sem educação, os meninos comprometem seu futuro. Nos despedimos de Linda com a promessa que, no próximo ano, os meninos voltarão à escola.

Eles esperam, com um novo micro-financiamento, instalar um posto de venda e reparo de bicicletas e assim diversificar suas atividades. Ela se encarregaria das tortilhas e Jorge do outro negócio. E os meninos, claro, estarão na escola.

* Este vídeo faz parte da série da RNW ‘Microcrédito: quem ganha?’

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