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Retrato de Eric Beauchemin

Microcrédito: conflito e mentiras em projeto no Quênia

Data de publicação : 17 Junho 2010 - 10:58am | Por Eric Beauchemin (Foto: EB)
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Repórteres da Radio Nederland viajaram mundo afora em busca de empresas que oferecem microcrédito em pequena escala. Abaixo o mais recente vídeo sobre o assunto – com opção de legendas em português -, seguido de um depoimento do repórter Eric Beauchemin.

No início de maio, me pediram que fizesse uma reportagem no Quênia durante a visita do procurador do Tribunal Penal Internacional, Luis Moreno Ocampo. Meu editor pediu que eu permanecesse por lá por mais alguns dias para fazer um vídeo sobre microcrédito, tema da Radio Nederland em 2010.

Após pesquisar por vários dias e intensivamente no Google, decidimos fazer uma reportagem sobre um projeto de moradia controverso, desenvolvido por uma das maiores organizações de microcrédito no Quênia, a Jamii Bora. A organização está construindo uma cidade para 10 mil moradores de favelas em uma área habitada pela população da etnia Maasai, perto do Parque Nacional de Nairóbi. “Volte com boas imagens com animais selvagens e os Maasais usando suas roupas coloridas”, disse meu editor. “Isso é bom para o vídeo.”

Na manhã seguinte, após minha chegada, fui visitar a cidade de Kaputiei e a Jamii Bora. Fica a 60 quilômetros da capital, Nairóbi, mas são necessárias duas horas para chegar até o local devido ao trânsito intenso em Nairóbi e à precariedade das estradas.

Ateliê de costura
Os telhados vermelhos de Kaputiei apareceram de repente no meio das paisagens verdes. Fomos visitar Jane Ngoiri, que se mudou para a cidade em abril do ano passado. Ela trabalhou seis anos como prostituta em Mathare, uma das mais populosas favelas de Nairóbi. Há dez anos, a Jamii Bora convenceu a ela e a outras profissionais do sexo a abandonar a profissão. A organização concedeu a elas um pequeno empréstimo para começar um ateliê de costura.

Jane tem recebido os empréstimos desde então e seu negócio é bem sucedido, mas ela não conseguiu progredir o suficiente para se mudar do quarto em que morava na favela. Quando a Jamii Bora ofereceu para ela um empréstimo por 20 anos para adquirir uma casa na cidade de Kaputiei, ela agarrou a oportunidade. E enquanto costurava e me contava sua história, continuava admirando sua sala de estar. Para Jane e outras, Kaputiei é um sonho que se realizou, mesmo admitindo que seus negócios diminuíram agora que ela mora distante de seus fornecedores e vendedores.

Impacto negativo
No dia seguinte, eu voltei para falar com alguns Maasai sobre o projeto e ouvi uma história completamente diferente. Eles lutaram cinco anos na justiça contra a organização de microcrédito para bloquear o projeto. Mas perderam e estão ainda mais amargos. Eles temem que Kaputiei e os moradores das favelas levem criminalidade, lixo e poluição para a região em que eles moram. Eles acreditam inclusive que os moradores das favelas vão trazer um impacto negativo para os leões, girafas, zebras, gazelas e outros animais selvagens. Como um Maasai explica, “A Jamii Bora é um câncer. Ameaça nossa sobrevivência.”

Pedi inúmeras vezes uma entrevista com um funcionário da Jamii Bora, mas a entrevista nunca aconteceu. Ao invés disso, a organização me levou, no dia seguinte, para visitar um Maasai que era uma das pessoas por atrás do projeto da vila Kaputiei. Vestido em roupas tradicionais Maasai, ele parecia muito mais convencido do que qualquer funcionário da Jamii Bora poderia ser. Ele disse ter se beneficiado pessoalmente do projeto porque vendeu uma parte das suas terras. Mas ele acredita que a cidade de Kaputiei vai beneficiar todos os Maasai na região porque trará escolas, facilidades médicas e desenvolvimento. Quando comentei com ele sobre os argumentos que eu havia ouvido um dia antes de alguns dos líderes Maasai, ele os recusou com um aceno. “É tudo mentira”, disse.

As duas posições são tão diametralmente opostas que é difícil saber quem está contando a verdade. Mas a conversa que tive com um dos opositores do projeto continua na minha cabeça. Ele me disse que há 1,5 milhão de pessoas vivendo nas favelas de Nairóbi. Construir casas para 10 mil deles na cidade de Kaputiei será apenas uma gota no oceano. E ele se pergunta: “Por que a Jamii Bora não faz algo para resolver a situação de moradia lá ao invés de criar problemas aqui?”

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