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Holocaust survivor Micha Schliesser
Retrato de Johan Huizinga
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Westerbork, Holanda
Westerbork, Holanda

Westerbork: óculos e pentes como testemunhas silenciosas

Data de publicação : 19 Janeiro 2012 - 5:26pm | Por Johan Huizinga (Foto: RNW)
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Como era a vida no campo de Westerbork? Em busca de uma resposta, arqueólogos estão escavando o aterro do local usado como ‘campo de transição’ para judeus na Segunda Guerra Mundial. Micha Schliesser sobreviveu à passagem por Westerbork. Ver os objetos encontrados traz à tona muitas lembranças. “Não consigo imaginar minha mãe sem um vidro de perfume. Ela com certeza trouxe um.”

“No começo, achei que era uma ideia louca e ridícula, mas agora acho que deve ser montada uma coleção permanente.” Micha Schliesser foi um dos primeiros moradores de Westerbork, quando ainda era um bebê de um ano e meio. “Meu pai era o número 127, então eu devo ter sido o 128.” Ele sobreviveu ao holocausto junto com seus pais.

Os objetos pessoais de moradores do campo fazem com que ele recorde muitas coisas. Principalmente a vitrine com óculos e pentes. “Chego quase a chorar ao ver isso. Eram pessoas vivas que deixaram estas coisas pra trás. Provavelmente, na noite em que ouviram que teriam que ir para ‘o transporte’, no meio de toda a emoção, não puderam mais encontrá-las. Quatro dias mais tarde elas provavelmente estavam mortas.”

Holocausto
Schliesser faz muitas palestras em escolas sobre o holocausto. Os objetos encontrados dão cor à imagem da vida no campo Westerbork. Fora isso, pouca coisa faz lembrar o ‘campo de transição’ por onde passaram 107 mil judeus antes de serem transportados para os campos de extermínio alemães.

Micha Schliesser e seus pais vieram para a Holanda como refugiados pouco antes da guerra, em 1939, a caminho dos Estados Unidos. Embora já tivessem seus vistos em mãos, foram presos em Oldenzaal, na fronteira holandesa, e mandados, via Roterdã, para uma caserna em Amsterdã.

Lá o pai de Schliesser foi perguntado se queria ir ‘voluntariamente’ com sua família para Westerbork. Lá ele poderia ajudar na construção de um campo para refugiados judeus. A escolha não foi exatamente voluntária, pois as crianças foram levadas para abrigos separados em Amsterdã.

Objeção de Wilhelmina
O governo holandês criou o campo de refugiados de Westerbork em 1939 numa área pantanosa da região de Drenthe. O local original, na região de Veluwe, foi mudado por objeção da rainha Wilhelmina, que não queria um campo deste tipo a cerca de 15 quilômetros do palácio Het Loo. E o governo, além disso, não queria gastar nenhum centavo com o campo de refugiados. Por isso foi feito um apelo à comunidade judaica. “Nós pagamos, portanto, para construir nossa própria prisão”, suspira Micha Schliesser.

Para ele, o círculo se fecha depois de 70 anos. Ele se irrita profundamente com o atual governo holandês, que expulsa refugiados que vieram para o país ainda bebês. “Queria que os parlamentares ficassem por um ano na situação de apátridas, sem passaporte ou proteção, para ver como se sentiriam.”

Tipicamente alemão
O plano de, após a invasão alemã, em maio de 1940, evacuar os refugiados judeus para a Inglaterra, passando por Zeeland, infelizmente não deu certo. Eles não passaram da cidade de Leeuwarden. De comum acordo com a comunidade judaica holandesa, o governo decidiu que os moradores de Westerbork deveriam retornar ao campo. O pai de Schliesser não queria fugir, se esconder ou permanecer ilegalmente em Amsterdã. “Neste sentido, meu pai era tipicamente alemão.”

A família voltou, portanto, a Westerbork. Não havia muita opção. “Se você pedisse ajuda a um fazendeiro na região, ele dizia que sim e no dia seguinte o levava de volta para o campo. Lá ele recebia dois florins e 50 centavos por isso.”

Dado
Micha Schliesser pega a tampa intacta de uma mantegueira de porcelana de uma das caixas de objetos escavados. “Isso eu não compreendo muito bem. Quem traria uma coisa assim?”

O arqueólogo e líder do projeto, Ivar Schute, conta que foram encontrados poucos brinquedos do período da guerra. Um dado, algumas peças de dominó, algumas bolinhas de gude. Mas Schliesser não se lembra de bolinhas de gude. Ele tinha sete anos quando deixou o campo, em 1945, mas a maior parte das lembranças foram reprimidas.

De brinquedos ele não se recorda. “Talvez fizéssemos jogos infantis, como pega-pega ou esconde-esconde. A maioria das crianças não sabia direito o que era um brinquedo.”

Ele pega um entre os muitos tubos vazios de pasta de dentes que foram encontrados. “Isto vem do jardim da casa do comandante do campo, Gemmeker”, diz o arqueólogo. “Ah, por isso ainda tem pasta”, balbucia Schliesser com um meio sorriso.

Sapato de couro
Micha Schliesser tinha esperança de encontrar alguma coisa reconhecível que pudesse preencher um buraco em sua memória. Mas mesmo o sapato de couro que ele perdeu no pântano não está ali. Isso o condenou a andar de tamancos de madeira por dois anos. Há um pequeno sapato numa caixa, mas Micha era muito pequeno na época para se lembrar.

Sua família ficou no campo de Westerbork até a libertação, em 1945. Seu pai teve a sorte de ter sido nomeado como chefe do departamento têxtil no campo pelo comandante Gemmeker. “Estas eram as pessoas importantes, elas não eram mandadas tão depressa para o transporte.” Foram os poucos.

Debate

Patricia Schor 20 Janeiro 2012 - 11:06am / Holanda

Ótimo artigo. A recuperação desta memória é muito importante, e a ligação com a atual política xenófoba na Holanda é fundamental.

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