No exterior, quando se fala em Brasil, pensa-se em praia, carnaval, futebol, caipirinha. Ninguém relaciona o país à produção de vinhos. Mas esta realidade está começando a mudar. A exportação tem aumentado e a grande variedade de vinhos produzidos no Brasil é uma atração à parte para os apreciadores da bebida.
“Houve um grande crescimento ao longo dos últimos anos, mas, em termos de volumes e valores, a exportação ainda é pequena em relação à produção”, diz Andreia Gentilini Milan, gerente de promoção comercial da Wines from Brazil. Ela esteve na Holanda, junto com representantes de 12* vinícolas, para uma degustação de vinhos brasileiros, organizada em parceria com a embaixada do Brasil.
| Produção e exportação
Atualmente, a produção anual brasileira é de cerca de 350 milhões de litros, sendo a maior parte destinada ao mercado interno. Embora a produção de vinhos no Brasil já tenha mais de um século de história -teve início em 1875, com os primeiros imigrantes italianos-, as exportações só iniciaram em 2002. No começo, eram apenas 6 vinícolas exportando e agora já são 40. Hoje o vinho brasileiro já é vendido a 28 países. A Holanda é atualmente o quarto maior comprador de vinhos do Brasil e um dos mercados considerados prioritários para os produtores brasileiros, ao lado de Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Grã-Bretanha, Polônia, Suécia e Hong Kong. |
Receptividade
O evento reuniu críticos, importadores, donos de restaurantes e formadores de opinião, com o objetivo de tornar o vinho brasileiro mais conhecido - um passo importante para que o volume de exportação também possa crescer. “Esta é uma fase crucial. A gente só tem uma chance de escrever a história”, diz Andreia. “No final, quem vai escolher nosso produto vai ser o consumidor lá na ponta, e ele tem que saber que existem vinhos brasileiros, a gente tem que ser uma opção de escolha pra ele.”
Segundo Andreia Milan, a abertura para o vinho brasileiro no exterior é grande. “Nos surpreende a receptividade, o quanto as pessoas estão abertas ao vinho brasileiro. Acabamos de chegar da ProWein, na Alemanha, que é uma das maiores feiras de vinhos do mundo, e nosso estande vivia sempre lotado. Já há seis anos participamos desta feira e até dois, três anos atrás, todo mundo chegava e dizia ‘nossa o Brasil faz vinhos?’. E hoje não, já chegam querendo fazer negócios com o Brasil.”
Espumantes
Vinhos brasileiros já receberam muitos prêmios internacionais, sendo o maior número de premiações para os espumantes. Dentre os tintos, os destaques são o merlot e o cabernet franc, mas os cortes também atraem o comprador estrangeiro, e até variedades exóticas. “As pessoas não vão ao Brasil esperando o óbvio, elas esperam algo inusitado, então variedades como egiodola, marcelan, que são pouco conhecidas, também despertam interesse nos compradores internacionais”, diz Andreia.
Novo mundo
Não é de hoje que os vinhos do chamado ‘novo mundo’ vêm ganhando terreno na Europa. Vinhos chilenos, argentinos, australianos, pra citar alguns, estão entre os preferidos do consumidor europeu. Mas como se explica este crescente interesse pelos vinhos do ‘novo mundo’ num continente com tanta tradição na produção de vinhos?
“É interessante o que acontece com o mundo do vinho, porque a pessoa que começa a ter prazer e quer conhecer mais de vinho sempre quer descobrir coisas novas, de países diferentes, novas variedades. E quando começaram a surgir vinhos chilenos, argentinos, do Uruguai, do Brasil, da Austrália, as pessoas começaram a se interessar. Principalmente os novos consumidores, os jovens. Acho que este é um dos motivos que faz com que os países do novo mundo estejam crescendo tanto em termos de exportação”, diz Andreia.
Na Serra Gaúcha como na Itália
O holandês René van Heusden, crítico de vinhos do site especializado Perswijn.nl, visitou o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, e ficou impressionado com o que viu e com o que provou.
“Quando se pensa em Brasil pensa-se em Rio, carnaval, samba, nos coquetéis ‘perigosos’ e este tipo de clichê. Em termos de vinho, também se pensa em hemisfério sul, o ‘novo mundo’ do vinho; vinhos maduros, ricos, pesados. E o Brasil não é nada disso”, diz Van Heusden. “Pra começar, quando se vai à região do Brasil onde quase todo o vinho é produzido, chega-se ao Rio Grande do Sul e, na verdade, chega-se a um pedaço do nordeste da Itália que há uns 150 anos atrás foi levado para ao Brasil. Todos têm um sobrenome italiano. As pessoas falam português, mas você sente em tudo: isso é Itália. Isso é muito valorizado, na comida, na cultura. E isso também pode ser provado nos vinhos.”
Também por isso, Van Heusden diferencia o vinho brasileiro de outros vinhos do ‘novo mundo’. “Os vinhos do Brasil, em geral, não são vinhos do ‘novo mundo’ mas muito mais o que se chama de vinhos do ‘velho mundo’, e ‘velho mundo’ no sentido dos vinhos que você geralmente encontra na Itália. Não são pesados, mas secos, frescos, sem um alto teor de álcool. Não é um vinho que você tome na frente da TV, mas quando se toma com uma refeição, acho que são vinhos muito surpreendentes e muito diferentes do que você esperaria daquela parte do mundo.”
René van Heusden destaca, dentre os vinhos brasileiros, os espumantes – “o que combina com a nossa ideia de que no Brasil é sempre festa” – e, dentre os tintos, o merlot, que, em suas palavras “pode ser surpreendente”.
Perfil indefinido
“Mas há muito mais plantado, muitas raças e muitos diferentes tipos de vinho, o que é interessante, mas por outro lado, se o Brasil quiser ter um impacto internacional, terá que se limitar a algumas raças de uva e a alguns tipos de vinho para se perfilar com clareza no mercado”, alerta o crítico holandês. “Quando alguém pergunta o que você pensa quando pensa em vinho brasileiro, há um silêncio. É um desafio para profissionais de marketing tentar perfilar o Brasil com clareza. A concorrência é tão grande e o mercado mundial tão duro e intenso que, se você não consegue se perfilar com clareza, tem poucas chances.”
Outro ponto em que os produtores brasileiros têm que ser cuidadosos, segundo Van Heusden, é o preço. “Como um país novo neste mercado, você pode até achar que tem um produto muito bom, mas se coloca os preços lá no topo, fica difícil. Para entrar no mercado como um país que ninguém conhece, é preciso ir com muita cautela.”
* Campos de Cima, Casa Valduga, Irmãos Basso, Lídio Carraro, Lovara, Miolo, Panceri, Piagentini, Pizzato, Vinibrasil, Vinícola Aurora e Vinícola Salton.




























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