Entro no elevador do meu prédio e consulto o espelho. Uma luz inclemente bate no cubículo onde a gente disfarça a proximidade com estranhos em profundas discussões sobre a meteorologia. Um casal entra, mas em vez de se queixar do calor, a mulher me olha e diz sorrindo: ‘você está nos trinques’, ao que homem confirma: ‘puxa, está mesmo!’ Saio para a rua feliz da vida. Só mesmo no Brasil.
Um dos exercícios pedidos numa oficina literária que frequentei no Rio, era um texto iniciado por: ‘De agora em diante vou colecionar...’ Inspirada pelo episódio acima, e pela nossa cultura da louvação, optei por colecionar ...elogios. Contei a história de uma menina, que a partir de um fato ocorrido na infância, passou a tecer elogios à esquerda e à direita. Nem sempre era correspondida, todos viviam ensimesmados, apegados ao hábito de reclamar, sem abertura para os outros. Mas ela não se importava, tocava seu projeto para frente, e saía pela vida afora, distribuindo amabilidades, arquivando as reações obtidas. Tal como a guru indiana distribuidora de abraços, a sua reputação de distribuidora de elogios ganhou o país e o mundo... e por aí vai.
O brasileiro é generoso, pródigo em elogios e em sorrisos, não gosta de dar opiniões desagradáveis. Mas também pode ser bastante evasivo e indireto. Na hora de se comentar verbalmente a atuação de alguém, poucos ousam dizer diretamente o que pensam ‘para não melindrar terceiros’. Durante a avaliação oral da tal oficina, ninguém foi capaz de dizer com franqueza o que realmente pensava, deixaram os comentários para o corredor da saída. Assim, todos acabaram por ser prejudicados: o treinador continuará a cometer os mesmos erros, e os participantes seguirão engasgados e rancorosos, acumulando críticas reprimidas.
Neste ponto, aprecio a objetividade holandesa. Prefiro ouvir avaliações (im)piedosas, aprender a elaborar e conviver com os senões, do que sempre ouvir cumprimentos desmerecidos, onde tudo é simplesmente MA-RA-VI-LHO-SO. Porém, frequentemente, erram na dose. Em nome da imparcialidade e do decantado ‘espírito crítico’, com escassos sorrisos, preferem enfatizar o lado negativo das pessoas e das coisas.
Atualmente, a delicadeza parece andar de mãos dadas com a economia, isto é, em franco recesso. Nós, emigrados, vivendo com duas visões de mundo, temos que quebrar a cabeça para não padecer de ‘esquizofrenia cultural’. Então, por que não utilizar o melhor dos nossos mundos e duas culturas e agir como a tal menina? Ah, como seria bom dar e receber mais elogios e sorrisos, se curar do ego excessivo, ser capaz de enxergar o alheio! O slogan ‘Gentileza gera gentileza’ pensado pelo legendário profeta Gentileza funciona, produz um efeito multiplicador. Sorrir, está constatado, melhora a aparência, é grátis, e portanto, tem boas chances de ser difundido por aqui. Um nicho de mercado?





























Acho ótimo. sou uma adepta da louvação! o mundo fica muito melhor.Parabéns Julia
GENTILEZA GERA GENTILEZA - A máxima do profeta Gentileza tem promovido mudança positiva na vida de muitas pessoas.Mantenho uma comunidade baseada nesses princípios e tenho a satisfação de notar a mudança em muitos participantes. Vale a pena insistir na Gentileza.
Concordo plenamente
Bom, acho que muitas vezes um senão já subentende uma não aceitação de algo, sem muitos detalhes e sem magoar o outro. Não me agrada a resposta curta e franca. Só no caso, talvez, de uma situação constrangedora ou extrema.Bjs.
Se pudéssemos aprender a ser mais objetivos e verdadeiros como os holandeses seria ótimo, mas eles também bem poderiam aprender a ser mais diplomáticos conosco. Ou seja, o ideal é o meio termo. Como dizia minha mãe"nem 8 e nem 80".
Lúcia
Minha mãe também dizia o mesmo... o negócio é saber a medida das coisas,nem sempre é fácil.
Julia,
A coluna está ótima, parabéns!
E vamos fazer a louvação sim, por favor.
Bjks,
N
Acredito que um elogio não pode ser negado: Muito bom!!! Gostei muito
Concordamos
Texto bom e interessante
Leuk!
Louvação
Acho que é uma boa discussão.
"Se não puder agradar, não desagrade."
Sou leitora e apreciadora de suas colunas.
Sucesso!!!
Margô Dalla
Brasileira e moradora de Amsterdã
Obrigada Margo
Adorei. sou uma adepta da Louvação. O mundo fica melhor. Parabens
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