O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva defendeu hoje que a criação da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) muda a geopolítica da América do Sul, tornando os países-membros "mais fortes e mais soberanos". No programa semanal "Café com o Presidente", transmitido nessa segunda-feira, Lula disse que a criação da organização regional representa "a realização de um sonho".
Alguns jornais de grande circulação no Brasil demonstraram ceticismo sobre a nova instituição. A proposta também teve grande repercussão na imprensa internacional, destacando as diferenças entre países, e a renúncia, na véspera do encontro, do primeiro secretário-geral da Unasul, Rodrigo Borja. Na sexta-feira passada em Brasília, com a assinatura de chefes de Estados de doze países, foi oficialmente constituída a Unasul.
O presidente Lula disse ainda que agora a região caminha para a criação de uma moeda comum e de um banco central único, comparando a Unasul, com a criação da União Européia e o Euro. No entanto, fez uma ressalva, "isso é um processo e não é uma coisa rápida".
O Conselho de Defesa, proposto pelo Brasil, não obteve o apoio da Colômbia. Apesar da recusa da Colômbia, os demais países da Unasul criaram um Grupo de Trabalho para finalizar em 90 dias o esboço do conselho, conforme anunciado pela presidente do Chile, Michelle Bachelet, após a reunião de cúpula entre os presidentes.
O presidente Lula acredita que, caso o Brasil possa "elaborar melhor a proposta e tirar algumas convergências" nos próximos 90 dias, a idéia poderá ser aprovada.
"A verdade é que, dos doze países, apenas a Colômbia fez objeção à proposta". Ainda segundo o presidente brasileiro, que disse ter conversado com o presidente Uribe, eles vão voltar ao tema, quando Lula for à Colômbia, em 20 de julho.
Otimismo venezuelano
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em debate com jornalistas e escritores brasileiros ressaltou que "devemos ser capazes de reconhecer o sinal de mudanças dos novos tempos". Lembrou que há trinta anos o continente era percorrido por colunas guerrilheiras lutando contra terríveis ditaduras militares. Confessou que, na época, era um soldado antiguerrilheiro. E destacou: "O que ocorre na agora na América (do Sul) é monumental! É histórico!"
Já o presidente colombiano, após encontro com o presidente Lula, na sexta-feira, disse que "a União Sul-Americana deve ajudar também para que a maior consolidação democrática elimine qualquer risco de governos extremos".
Uribe não aceita que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) sejam tratadas como um grupo beligerante, como faz a Venezuela, ou que não sejam consideradas terroristas por outros países do continente, entre eles o Brasil.
A idéia de um Conselho de Defesa partiu do Brasil, e o ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, fez um périplo por vários países em defesa da idéia. "A decisão política de 11 países para criar o conselho está tomada", disse o ministro Jobim, procurando minimizar a falta de apoio da Colômbia.
Entusiasmo brasileiro
Apesar dessas diferenças regionais, que colocam em dúvida os esforços de integração, os países da América do Sul criaram um ambicioso organismo internacional para levar adiante a união política e econômica. Lula disse que a América do Sul ganha um novo papel geopolítico com a criação do organismo. "Unidos mexeremos o tabuleiro de poder no mundo", disse no discurso de abertura da reunião de cúpula.
"Nossa América do Sul não será mais um mero conceito geográfico. A partir de hoje, é uma realidade política, econômica e social, com funcionalidade própria", concluindo que a Unasul é como um sonho maior que o de Simon Bolívar, defensor da integração entre os países da região. "Está acontecendo uma coisa extraordinária. Nós criamos mais do que Bolívar quando bradou a criação da Grande Colômbia, criamos a grande nação sul-americana", comemorou entusiasmado.
União Européia x diplomacia
Lula admitiu que a Unasul não tem os recursos que a União Européia teve para reduzir as assimetrias entre os seus países, mas apostou na disposição dos vizinhos sul-americanos.
O nascimento da Unasul ocorre em meio a repetidos atritos diplomáticos entre a Colômbia e seus vizinhos Venezuela e Equador. O governo colombiano acusa os presidentes dos países vizinhos de darem apoio à guerrilha das Farc.
Mas o presidente replicou que "a América do Sul é hoje uma região de paz, onde floresce a democracia", destacando o fato de todos os governantes do continente terem sido democraticamente eleitos. "A instabilidade que alguns pretendem ver no nosso continente é um sinal de vida, em especial de vida política", completou.
Holanda
O jornal holandês "De Trow" destacou a importância da união regional com parlamento próprio, comparando com a União Européia, apesar de algumas pequenas diferenças. Destacou ainda a fala de Hugo Chávez, dizendo que a organização é um contrapeso ao "império dos Estados Unidos".
O jornal "De Telegraaf" comentou que a Unasul pretende imitar a União Européia e que poderá dar um importante salto nos aspectos de desenvolvimento social e econômico, repetindo o discurso do presidente Lula.














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