Essa é a quinta vez que Heitor Frúgoli, professor de Antropologia da USP, visita a Holanda e mesmo assim ele admite que, felizmente, ainda sente aquele ‘estranhamento’ de uma experiência no exterior. “Esse período aqui é uma grande oportunidade de ver um contexto urbano diferente, que me permite não só olhar para outras cidades, mas, principalmente, olhar para o Brasil com uma outra perspectiva.”
O mestre em Antropologia Social e doutor em Sociologia pela USP é autor dos livros São Paulo: espaços públicos e interação social e Centralidade em São Paulo: trajetórias, conflitos e negociações na metrópole. Nos últimos dois anos, tem se dedicado à pesquisa intitulada: “O bairro da Luz em São Paulo: questões antropológicas sobre o fenômeno da gentrification”. O estudo explora, numa perspectiva etnográfica, as mudanças sociais e urbanas em curso no bairro da Luz, localizado na área central da cidade de São Paulo.
Aproveitando essa sensibilidade de enxergar o Brasil ‘de fora’, Heitor Frúgoli, que veio para Universidade de Leiden, na Holanda, como professor-visitante durante três meses, fez na semana passada uma palestra sobre sua pesquisa no CEDLA – Centro de Pesquisa e Documentação sobre a América Latina da Universidade de Amsterdã.
Revitalização
A região paulistana do bairro da Luz foi presenteada, na última década, com a revitalização de uma série de instituições culturais. O Museu da Língua Portuguesa abriu suas portas em 2006 atraindo aproximadamente 50 mil visitantes por mês. A Sala São Paulo, localizada dentro do Complexo Cultural Júlio Prestes, depois da restauração tornou-se a maior e mais moderna sala de concertos da América Latina. Além disso, a Pinacoteca do Estado ampliou seu acervo, contando agora com cerca de 7 mil obras e um conjunto significativo da arte brasileira dos séculos XIX e XX.
Entretanto, ao mesmo tempo que o bairro é fruto de uma renovação cultural, atraindo um público de classe média-alta, é também tradicionalmente um bairro de ocupação popular desde o início do século XX, além de ser um espaço que lida com a prostituição e com usuários de crack, na estigmatizada ‘Cracolândia’.
“Esse conflito entre a revitalização cultural da área e a ‘Cracolândia’ é algo bastante discutido na mídia. Entretanto, existe também uma população local composta de moradores, comerciantes e pessoas que usufruem locais como bares e parques, por exemplo, que quase nunca merecem a atenção devida”, explica Heitor Frúgoli.
Territorialidade
O antropólogo já pesquisa há dois anos essa realidade e tenta compreender como essa população local entende os movimentos de intervenção no bairro. “É justamente esse público, basicamente composto por moradores e comerciantes, que tem que lidar com essa questão da territorialidade, como as demolições ocorridas na região por conta dessa revitalização. Eles estão conscientes dos problemas da prostituição e das drogas, mas também sabem das vantagens do bairro, da sua localização, da facilidade dos transportes, e não querem sair dali”, explica.
Em relação ao possível conflito do público frequentador das instituições culturais, composto pela classe média-alta, Frúgoli explica que, em geral, eles são favoráveis a uma intervenção que possibilite que a Luz se torne apenas um espaço cultural. “Essa é a tendência geral, mas varia muito do tipo de frequentador. Por exemplo, as pessoas que normalmente vão de carro à Sala São Paulo têm uma visão muito negativa do entorno e o associam com violência e perigo. Já quem frequenta o Museu de Língua Portuguesa, por exemplo, costuma seguir o passeio no Parque da Luz, o que proporciona contato com classes diferentes, tornando-se uma experiência de diversidade que eles apreciam.”
Os conflitos e problemas analisados ainda estão presentes na região e não têm previsão de serem solucionados a curto prazo. Sabe-se que as demolições serão retomadas em algum momento. “Não há nenhum projeto, a meu ver, que leve em conta os moradores e frequentadores da região - não estou falando dos frequentadores das instituições culturais. A ênfase discursiva do poder público se volta contra os usuários de crack, o que efetivamente constitui uma questão, mas que não dá conta de outros atores sociais daquele contexto e acaba por 'criminalizar' toda a área”, aponta Frúgoli.

























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