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Haia, Holanda
Haia, Holanda

Um ‘baseadinho’ não é tão inofensivo

Data de publicação : 22 Fevereiro 2010 - 4:19pm | Por Maurice Laparlière (Foto: Flickr)
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A política em relação a drogas leves é uma das grandes atrações turísticas da Holanda, quer os holandeses gostem ou não. Na Holanda é ‘tolerado’ que maconha e haxixe sejam vendidos em coffeeshops, embora oficialmente, pela lei, isso não seja permitido. Mas esta política de tolerância agora está sob discussão, pois é possível que fumar estas drogas seja menos inofensivo do que se acreditava. Em uma clínica para jovens viciados em Haia, rejeita-se a ideia de que ‘drogas leves não viciem’.

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É uma discussão antiga: o fácil acesso às drogas e a política de tolerância holandesa levam os jovens ao vício? A partir de 18 anos, qualquer pessoa pode comprar pequenas quantidades de drogas leves ou cultivar maconha para consumo em casa. Recentemente, a Fox, um canal de televisão conservador dos Estados Unidos, apontou seu dedo acusatório para a Holanda.

Amsterdã seria a Sodoma e Gomorra do mundo atual e seus moradores viveriam permanentemente ‘chapados’. As estatísticas dizem o contrário. Segundo a renomada empresa de pesquisas Trimbos, graças a sua política de tolerância, a Holanda tem menos viciados em drogas do que a maioria dos países ocidentais.

Desintoxicação
Esta é a boa notícia. A má notícia vem da clínica para viciados Brijder, em Haia. A terapeuta Sandra Beltjens nos mostra sua clínica: “Este é o departamento de desintoxicação”, ela diz. “Aqui, jovens entre 12 e 21 anos são desintoxicados nos primeiros meses. Eles vêm para deixar o álcool, a cocaína, anfetaminas, e principalmente maconha e haxixe. Na nossa sauna, eles suam tudo isso pra fora. É uma parte importante do tratamento. Além disso, eles também praticam esportes e conversam muito. Tentamos fazer com que eles voltem a ser seres sociais.”

Há 20 anos, o teor de THC (substância ativa da maconha) era 6% e hoje fica entre 18% e 20%. E o que também mudou: antes, um cigarro de maconha era fumado entre vários amigos. Hoje, os jovens o fumam inteiro sozinhos.

Tremendo como bambu
Sandra Beltjens diz que 80% a 90% dos jovens que vêm a sua clínica fazem uso compulsivo de drogas leves. “É um mal-entendido acreditar que elas não viciem. Nós recebemos adolescentes aqui que tremem como bambu porque ainda não fumaram naquele dia. Antigamente, fumava-se um baseado num grupo e agora cada um tem o seu. E a quantidade de THC triplicou nas últimas décadas. É de cara uma ‘pancada’ de drogas que você ingere e com isso pode se tornar dependente.” O que ela diz, nas entrelinhas, é que as drogas leves com frequência não são tão ‘leves’ assim. A lista de espera para a clínica também estão cada vez mais longas.

Nada tem graça
O jovem Alex, de 18 anos, sabe como ninguém o que sua terapeuta quer dizer. Ele começou a fumar maconha aos 13 anos. Ele era intimidado na escola, não tinha amigos, mas através da droga se sentia bem e relaxado. No entanto, logo o hábito o levou para o caminho errado.

"A partir de um certo momento, nada mais tinha graça sem maconha. O programa de TV do qual eu sempre gostei: se não estivesse drogado, não me interessava. A mesma coisa com meu vídeo game favorito: sem a droga eu não via graça. Sem perceber, você chega ao auge do vício. Se você pode dizer que fuma um e depois vai para a escola ou para o trabalho e consegue funcionar normalmente, não tem problema. Mas eu não conseguia fazer isso.”

Nem sempre é como aconteceu com Alex, afirma a terapeuta Sandra Beltjens. Quase todo adolescente experimenta álcool e drogas e na maioria das vezes não há problema. Principalmente se os pais mantêm o diálogo com os filhos: o que você achou? Havia outros jovens? Foi bom ou ruim? Como você conseguiu a droga? Você vai querer experimentar de novo? Segundo Sandra Beltjens, um diálogo assim pode melhorar os laços entre pais e filhos. A ‘política do avestruz’, de não se tocar no assunto, aumenta, segundo ela, o risco de que o jovem se torne viciado.

Política
A terapeuta não quer comentar sobre questões políticas, mas Alex tem uma opinião clara sobre a política holandesa de tolerância:

”É uma piada dizer que não se pode cultivar maconha em grandes quantidades quando se sabe que os coffeeshops têm grandes quantidades pra vender. É uma lei para nada. Proibir não faz sentido, pois aí cai na ilegalidade e o problema se torna ainda maior. Eu gostaria de ver as drogas leves tratadas da mesma forma que o álcool, com leis bem claras. Que estivesse disponível para compra, viesse de uma plantação do governo e o teor fosse tal e tal. Nada de incertezas, mas uma lei clara, assim como existe para o álcool.”

Pela raiz
Se esta clareza virá saberemos no próximo mês, quando sairá o veredito do processo do Estado contra o maior coffeeshop do país. O coffeeshop agora está fechado, mas é acusado de ter ligação com criminosos e de ter vendido mais drogas do que poderia.

Uma sentença dura do juiz pode cortar pela raiz a tolerância holandesa para com as drogas leves.
 

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