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Sábado 25 Maio  
O professor de Economia da Universidade de Amsterdã, Sweder van Wijnbergen
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Hilversum, Holanda
Hilversum, Holanda

Tsunami monetário: crítica brasileira é rejeitada na Europa

Data de publicação : 15 Março 2012 - 12:13pm | Por Beatriz Bringsken (Foto: Sweder van Wijnbergen/VPRO)
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Dilma Rousseff críticou a política econômica da zona do euro durante sua recente viagem à Alemanha. O fato da Europa estar cautelosa em aumentar a capacidade de investimentos, segundo a presidente, pode gerar um tsunami financeiro em países emergentes ao impedir o fluxo de recursos, tratando-se de uma possível guerra cambial. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, defendeu as medidas adotadas dizendo que a acusação do Brasil não estava baseada na realidade. E é neste cenário cheio de incertezas, com informações complexas e até opostas, que poucos conseguem dar um diagnóstico maduro.

Só quem já testemunhou as velhas crises e entende como a história da bolha financeira se repete consegue emitir um parecer. Nesta entrevista, o professor de Economia da Universidade de Amsterdã, Sweder van Wijnbergen, faz uma análise histórica das velhas crises financeiras e fala, entre outras coisas, sobre a tradição dos bancos públicos no Brasil. Van Wijnbergen foi secretário do Ministério de Assuntos Econômicos holandês e trabalhou no Banco Mundial em um momento histórico, entre 1980 e 1992, quando a América Latina viveu a crise da dívida externa. O economista holandês discorda dos argumentos apresentados por Dilma Rousseff, cuja análise é de um tsunami monetário mundial que mal começou. Van Wijnbergen se posiciona num outro extremo. Ele acredita que o pior da crise já passou e que o efeito tempestuoso é algo restrito, mas não global.

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- A crise financeira é um assunto bem complexo, e nem sempre a mídia consegue deixar isso bem explicado. No seu ponto de vista, o que falhou?
Durante a crise de créditos (em 2008) a imprensa não mostrou que os supervisores financeiros do Banco Central haviam errado ao não reagirem às advertências de que havia um défice. A principal explicação referia-se aos banqueiros que elevaram os riscos e isso é verdadeiro, porém a mídia deu pouca atenção ao fato de que os supervisores foram advertidos e não agiram. O supervisor não foi responsabilizado pelo erro e assim começou a crise, com o colapso das instituições financeiras.

- E qual o poder de influência que a dívida pública da Grécia teve na crise?
O principal problema foi da própria Grécia ao criar tamanho défice, mas a União Européia também tem sua parcela de culpa, pois deveria estar atenta a tudo. Eu não acho que dá para facilmente esconder 6% de aumento da dívida no PIB. Este grande défice, muito maior do que o recomendado, ficou escondido por um longo tempo. A UE provavelmente estava consciente disso, mas foi politicamente conveniente não dizer nada. Ter permitido que a situação continuasse, ao invés de intervir logo no início, teve um preço muito alto.

- Que função teve o Banco Central Europeu nesta crise?
O Banco Central teve um papel mais relacionado com a primeira crise de crédito, como regulador do setor financeiro, onde a crise começou, entende-se que esse controle foi problemático. No caso da Grécia a questão é mais governamental, pois o governo grego deixou o défice público crescer e manteve-o bem escondido. Escondeu a dívida e agora tem problema financeiro. E como os bancos faziam investimentos em títulos de um governo com défice eles foram infectados. Então, a atual crise começou no setor público e, depois, infectou o setor privado.

- Como o sr. avalia a política monetária?
Houve excessos antes da crise de crédito, e bem antes do problema com o grupo de países conhecidos como PIIGS: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. O erro da zona do euro é ter uma única política para todos os diferentes países.

- E o BCE sabe regular diferentes países com uma única política?
Não, e essa é a questão. A política monetária na UE coloca todos no mesmo nível, não permite variações e isso gerou um problema estrutural. Há dez anos países como Espanha, Grécia e Irlanda deveriam ter tido políticas mais específicas.

- Mas é um problema de governança política ou financeira?
A crise atual foi, primeiramente, um problema no governo que infectou os bancos, de modo que os bancos pegaram a doença proveniente do setor público.

- E é possível identificar na Europa uma liderança forte?
Não, o que também gera outro problema. Quando houve a crise da dívida pública no México, na década de 80, os EUA tomaram a liderança com um pacote de reformas para redução da dívida. Na Europa não existe uma liderança clara. O líder com o maior potencial é a Alemanha, e apesar de terem muitos ministros discutindo, nessa parte eles fracassam pois não se sentem responsáveis por essa tarefa.

-E o 1 trilhão de euros nos últimos 3 meses vai fazer diferença?
Este é o total bruto, mas no que refere à dívida o valor é menor, pois a maior parte do dinheiro ficará depositado lá no Banco Central Europeu.

- Então o governo corta gastos sociais, não investe na geração de empregos e ainda faz o gosto dos banqueiros. É isso mesmo?
A verdade é que a parte mais pobre da população, junto com a classe média baixa, leva nas costas o peso dos ajustes. É difícil pensar em outra maneira de fazer esses cortes, pois se a UE não socorrer os bancos e deixá-los ir à falência, em seguida, o setor privado não será capaz de obter créditos, gerando ainda mais desemprego. Contudo, existe uma outra solução que a Europa não vê, mas que foi executada nos EUA, quando os bancos foram obrigados a aumentar o seu próprio capital. O que significa que os acionistas acabaram tendo a sua cota de responsabilidade ao serem penalizados. Porque para gerar um novo capital a empresa se dilui e tem que compartilhar as perdas com os outros. Mas isso não foi feito aqui na Europa, aqui usamos o dinheiro do governo para facilmente ajudar os bancos. Nos EUA, o governo obrigou os bancos a pagar pelo prejuízo, a escolha que eles fizeram foi melhor. Na Europa tínhamos muito dinheiro dado pelo Estado aos bancos, ao invés de forçá-los a usar o próprio capital e enfraquecendo os acionistas.

- A taxa de juros de 1% durante 3 anos é uma boa medida?
Não faz muita diferença discutir isso, pois é essencialmente óbvio que a taxa tem que ser baixa.

- A presidente Dilma Rousseff, recentemente, criticou a política cambial européia. Mas como a Alemanha poderia ajudar a combater a crise?
Estou um pouco preocupado com isso. O Brasil cresceu muito devido às boas medidas macroeconômicas e políticas sociais que os presidentes anteriores mantiveram. O país é uma grande história de sucesso, pois mudaram as políticas fiscais e fizeram os programas sociais, como o Bolsa Família. Este seria um bom momento para os governos europeus aprenderem com o Brasil. O problema é a tendência do mercado de capitais no mundo todo se dirigir aos países que estão fortes. E neste caso tem sido o Brasil e a Alemanha. Isso aumenta a taxa de câmbio naturalmente. A minha percepção é que isso não tem relação com a política na Alemanha, mas sim com o fato de que Lula e Dilma seguiram políticas econômicas muito boas. E agora a economia está crescendo e atraindo o capital estrangeiro. Então, o problema do câmbio tem mais a ver com o Brasil do que com a Alemanha.

- Mas então por que a presidente Dilma iria criticar a política monetária como excessivamente expansionista?
O Brasil acha que os EUA e a União Européia excedem na política monetária expansionista. O enfraquecimento do euro e do dólar provocaria então uma queda nas outras moedas. Eu não acredito nisso, pois o euro tem conseguido se manter estável. O Brasil enfrenta esse problema devido à própria economia, e o tsunami monetário está relacionado com o que acontece lá.

- Sendo assim, não há um tsunami monetário global?
Penso que isso está mais relacionado com os EUA. A crítica brasileira seria melhor construída caso um maior número de moedas nacionais também estivessem contra o dólar e o euro, o que não é o caso. Por exemplo, países do Leste Europeu, que não são tão fortes, como a Polônia e Hungria, de alguma forma recebem uma influência do Brasil quanto às políticas e barreiras tarifárias. Como eles ainda possuem a antiga moeda e uma política monetária independente, o Brasil valoriza bem essas exceções. A forte entrada de capitais no Brasil está diretamente ligada às excelentes performances do Brasil.

- E quanto à guerra cambial?
O Brasil pensa que os EUA estão desvalorizando o dolár para obter uma maior competitividade internacional, obrigando o Brasil a também desvalorizar o real. Eu penso que a razão para a moeda brasileira estar forte é o bom desempenho do próprio Brasil. Embora exista uma dinâmica clara, eu não acredito numa guerra cambial. Nos últimos anos, os norte-americanos seguem dizendo que essa seria a última grande intervenção econômica. É provável que os EUA agiram bem e os resultados dos ajustes devem aparecer até o final deste ano. Logo os conflitos vão diminuir.

- O que falta ser feito para controlar a crise?
Há quem diga que o défice que abateu o Sul é apenas uma imagem refletida da bagunça gerada pelo Norte, isso dentro da zona do euro. Mas todos os países têm que combater o seu próprio défice. A questão principal foi o tamanho dos défices na Espanha e na Grécia. Da mesma forma o défice que o Brasil tinha há 15 anos, até mesmo antes do Lula e do Fernando Henrique Cardoso, era muito grande. O Brasil teve que fazer cortes profundos e passou por dolorosos projetos fiscais. O ponto forte do Lula foi que ele diminuiu os gastos públicos, mas preservou o orçamento para projetos sociais. O Brasil teve um programa de ajustes doloroso e, agora, a Grécia terá que fazer o mesmo.

- E quanto ao dinheiro injetado nos bancos?
Esse é uma preocupação, pois há muitas isenções em prol dos bancos, eles deveriam ter recebido menos subsídios. O governo poderia salvar os bancos cobrando deles uma maior responsabilidade, principalmente para os acionistas. Os EUA fizeram isso, mas na Europa não. Inúmeros riscos foram transferidos para o setor público, o que não foi uma medida sábia.

- Qual a sua percepção sobre os bancos públicos no Brasil?
Não há nada de errado em ter bancos públicos, só depende de como são gerenciados. Se o governo os quer como instrumento para secretamente passar subsídios, a idéia está errada. Por outro lado, se for administrado de uma forma responsável e com os custos balanceados, então poderia desempenhar um papel muito útil nas questões sociais do país. O Brasil tem um processo de desenvolvimento diferente, então imagino que bancos públicos com o foco social tenham um papel a desempenhar.

- E como os bancos privados poderiam competir?
Deve-se localizar o estágio de desenvolvimento que o país vive, pois o ideal é um sistema bancário competitivo, mas isso depende de um bom sistema regulador. O banco público também pode ser gerido de forma adequada, se não for um instrumento de repasse de subsídios, em especial os corporativos. Empresas privadas devem ser independentes do Estado. Mas imagino que o Brasil tenha problemas em oferecer às pessoas carentes o acesso aos serviços de crédito. Bancos comerciais não fariam isso com facilidade, portanto, um banco público deveria se concentrar neste tipo de tarefas.

- Qual a sua previsão para o fim da dívida pública européia?
Na zona do euro a dívida pública é bem menor do que nos EUA e no Reino Unido. É alta apenas em alguns países. A Grécia terá que combater, por um longo tempo, esse grande problema, mas é sim possível que obtenham a redução da dívida. Assim como o Brasil fez no início dos anos 90. Daqui um tempo, penso que todas as dívidas terão sido resolvidas.

- E a recessão?
É muito difícil prever a ação dos políticos, mas penso que já vimos o pior da crise. Agora a tendência é melhorar.

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