Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, a Radio Nederland publica durante essa semana uma série de entrevistas com brasileiras de destaque na Holanda.
Começar um trabalho novo, adotar um outro estilo de vida, longe da família, dos amigos, e do “jeito brasileiro de ser”. Mudar de país é sempre um enorme desafio, ainda maior quando já se tem filhos e uma carreira consolidada. A juíza Sylvia Steiner, entretanto, não se deixou intimidar quando, aos 50 anos, recebeu a proposta de trabalhar no Tribunal Penal Internacional (TPI), na cidade de Haia, Holanda.
Foi assim que, em 2003, começou a aventura da paulistana em terras holandesas. Claro que não foi fácil e Sylvia sentiu as mesmas inseguranças que um adolescente ao mudar-se para um outro país. “Tive muitos medos: de largar minha carreira pública no Brasil, de me afastar pela primeira vez de minha família, de viver num lugar estranho e de começar, aos 50 anos, uma nova carreira numa área ainda desconhecida”, explica.
Nomeação
Formada em Direito pela USP, com pós-graduação em Direito Internacional, Sylvia foi advogada durante três anos em São Paulo e em seguida ingressou na carreira de Procuradora da República. Depois de 13 anos, foi indicada para ser juíza do Tribunal Regional Federal de São Paulo. Em 2003, veio a sua nomeação para fazer parte do Tribunal Penal Internacional (TPI), um dos mais importantes órgãos judiciários internacionais, responsável por julgar indivíduos envolvidos em genocídios, crimes de guerra e contra a humanidade.
“Acredito que essa experiência nas três áreas me colocou numa posição de vantagem na disputa pela indicação para concorrer ao cargo de juíza do Tribunal Penal Internacional. Também sempre estive envolvida em trabalhos com as ONGs de proteção aos direitos humanos, e creio que esse foi também um fator importante na minha escolha como candidata brasileira ao cargo de juíza do TPI”, conta.
Há sete anos na Holanda, Sylvia é motivo de orgulho para o Brasil, fazendo parte dos 18 juízes internacionais que compõem o TPI, e participando de casos mundialmente importantes como o de Omar Al-Bashir, acusado de genocídio no conflito de Darfur (Sudão).
Os obstáculos
O reconhecimento profissional veio à custa de muito trabalho e também de algumas superações. A primeira barreira fora do Brasil foi a saudade da família. “Estar longe dos meus filhos e da minha mãe foi muito difícil. Passei quase todo o primeiro ano lutando contra a depressão. A adaptação no trabalho não foi fácil, já que meu departamento começou a ter trabalho imediatamente, e eu tinha que aprender tudo muito rápido, e por minha conta. Me senti extremamente só e isolada. Foi bem difícil”, desabafa.
Entretanto, isso não foi motivo para Syvia se abater. Ela adora seu trabalho e explica que sempre lutou muito por tudo que conseguiu na vida. “Criei meus filhos sozinha, e consegui, de uma forma ou de outra, conciliar a maternidade e a profissão. Vejo minha missão quase que cumprida. Do ponto de vista profissional, galguei todos os degraus, atuei em todas as áreas jurídicas, deixei um nome respeitado em todos os lugares por onde passei, e hoje estou aqui, como juíza internacional. Sou uma mulher realizada, com muito orgulho”, define.
O contrato de Sylvia como juíza do TPI acaba daqui dois anos e o primeiro plano é voltar para o Brasil. “Apesar de gostar muito daqui e estar aprendendo a cada dia, minha prioridade será ficar com minha família.” Profissionalmente, embora ainda seja muito cedo para decidir e definir algo, Sylvia já começa a analisar algumas possibilidades e se sente inclinada com a idéia de trabalhar com o sistema americano de Direitos Humano.
Ser mulher
Sylvia conta que encontrou alguns obstáculos na sua vida pelo fato de ser mulher, principalmente no período em que foi advogada. “Os clientes de meu escritório, na maioria homens - preferiam ser atendidos pelo titular, pois temiam que eu, como mulher, não fosse defender os interesses deles.” Ela conta que naquela época só havia juízes e promotores de justiça do sexo masculino, e muitos deles viam as advogadas como profissionais inferiores. “Tínhamos que trabalhar dez vezes mais e melhor para nos afirmarmos profissionalmente.”
Ao falar sobre sua visão da mulher na sociedade de hoje, diz acreditar que elas estão se emancipando e que a situação hoje em dia é infinitamente melhor do que era em seu tempo. “A diferença é que hoje em dia há um número cada vez maior de mulheres com acesso à informação, e portanto conhecedoras de seus direitos. Conhecer seus direitos é o primeiro passo para exercer seus direitos, e para exigir condutas compatíveis com o status da mulher”.
Finalmente aconselha: “Sempre vale a pena tentar ir um pouquinho mais longe. Não existe sonho impossível. É preciso dar os passos certos, ter paciência e perseverança, e fazer sempre um bom trabalho.”
































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