Lebo Malepe espera ganhar dinheiro durante a Copa do Mundo de 2010. Sua avó vive em Soweto, bairro pobre de Johanesburgo, e Lebo vai montar uma pequena pousada, tipo bed & breakfast, em sua casa.
Rachel Mokoene, de 76 anos, está preparando carne frita em seu fogão elétrico em Soweto. “No inverno eu uso o velho aquecedor”, diz, apontando para um forno a carvão num canto da casa. “Aí fica bem quentinho.” Sua cozinha é um cômodo de 12 metros quadrados, mais ou menos, e o ponto central de sua modesta casa. Ali ela recebe, desde 1957, familiares, amigos e visitantes.
Gogo
E em breve, se tudo der certo, também torcedores de futebol. Junto com seu neto Lebo, de 34 anos, ela vai transformar sua casa num bed & breakfast. Lebo está na mesa da cozinha e come a carne frita com as mãos. Ele está visitando sua avó para ver como estão indo as reformas das acomodações para os torcedores.
Sua ‘gogo’ (vovó na língua zulu) mora em um pequeno terreno onde, além de sua casa, há dois barracos e uma construção com três quartos e banheiro. Os quartos serão usados para hospedar os turistas e estão sendo pintados.
Tino comercial
Na África do Sul, o cidadão comum se pergunta como poderá lucrar com a Copa do Mundo, que começa em junho. Estima-se que 350 mil torcedores estrangeiros visitarão o país para a competição. Mas por causa dos altos custos de passagens e hospedagem, muitos estrangeiros não estão animados.
O governo sul-africano continua dizendo que o torneio será bom para todo o país. Mas obter algum ganho individual direto não é fácil. Mesmo assim, Lebo confia em seu tino comercial para lucrar com os turistas.
“Não há lugar melhor para ficar do que a casa da minha avó neste bairro fantástico”, diz com um sorriso. O amor de Lebo por Soweto está tatuado em seu braço. O jovem sul-africano, que nunca terminou o ensino médio, sabe do que está falando. Ele já instalou com sucesso uma pousada para mochileiros na casa ao lado da de seu pai. Agora é a vez da casa da avó.
Lembranças
Mas desta vez os hóspedes também vão ter sua avó por perto. E este é o charme. “Ela tem muitas histórias pra contar”, diz Lebo. Rachel nasceu em Soweto em 1933 e nunca saiu dali. Soweto (abreviação de South Western Townships) é a maior ‘township’ da África do Sul e é mundialmente conhecida pela manifestação de estudantes, em 1976, contra a política do apartheid de ensino obrigatório em Afrikaans (língua derivada do holandês dos colonizadores). Este protesto, que teve vários mortos, criou uma onda de manifestações no país.
E a casa de Rachel fica em Orlando East, perto de onde o ex-presidente Nelson Mandela morou. “Ela pode contar aos visitantes sobre a história de Soweto e dividir suas lembranças”, diz Lebo. Os turistas também podem ver de perto como vive uma grande parte dos sul-africanos. “E o estádio Orlando, onde acontecerão os treinos da Copa, fica bem perto.”
Vida nova
Vovó Rachel está animada com ideia de receber os turistas. “Espero que a Copa traga mudanças. Isso irá me ajudar financeiramente, mas também me fará mais saudável e feliz. Posso passar mais tempo com meu neto e conhecer pessoas do mundo inteiro. Eu achava que iria me bater para o resto da vida com uma aposentadoria que não dá pra nada. Nunca pensei que teria uma nova vida.”
A Copa do Mundo está dando esperanças a muita gente, acredita Lebo. “Mas nem todo mundo poderá lucrar. São principalmente pessoas nas cidades em que acontecerão os jogos que podem ganhar. Fora delas acho difícil. Estou pegando esta chance com as duas mãos. É trabalho para mim, meu primo e minha prima, que vão me ajudar. E para a minha avó será um hobby. Ela já está muito velha e quero que ela aproveite. O trabalho mesmo ela tem que deixar com a gente.”
Segurança
O preço de uma noite de hospedagem com vovó Rachel ainda não está definido. Mas Lebo diz que não quer explorar os turistas. Muitas acomodações na África do Sul aumentaram seus preços para a Copa. A South African Tourism, órgão responsável pela área de turismo, alertou que, desta forma, a África do Sul poderá perder a imagem de destino barato, mesmo depois da Copa. Lebo concorda e visa atrair principalmente turistas de orçamento mais curto.
A questão é saber se uma grande parte dos 450 mil torcedores esperados vai querer se hospedar numa ‘township’. A embaixada holandesa, por exemplo, desaconselha e diz que elas devem ser visitadas apenas com guias especializados, por causa da falta de segurança. Vovó Rachel reconhece que existe criminalidade e tem uma regra importante em sua casa: hóspedes não poderão sair sozinhos depois que anoitecer. Mas, segundo ela, não precisam ter medo: “Nós estamos aqui para protegê-los. Somos de Soweto e queremos que se sintam bem-vindos.”


























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