Começou esta semana o Festival Internacional de Cinema de Roterdã, o maior da Holanda e um dos mais importantes da Europa, com cerca de 500 títulos em exibição. Vários filmes brasileiros participam do festival este ano, entre eles ‘Rânia’, primeiro longa-metragem da brasileira radicada na Holanda Roberta Marques.
Através da história da adolescente Rânia, Roberta Marques aborda o drama de inúmeros jovens talentosos que por limitações econômicas se veem impedidos de desenvolver todo o seu potencial. O caminho para a realização de um sonho pode exigir opções difíceis, e a falta de oportunidades e de perspectiva muitas vezes os coloca diante de grandes dilemas morais.
Rânia – interpretada pela estreante Graziela Félix – vive no morro Santa Terezinha, em Fortaleza, e sonha em ser bailarina. Por um lado, é estimulada pela coreógrafa Estela (Mariana Lima), por outro, sua melhor amiga, Zizi (Nataly Rocha) a leva para uma boate, onde dança, sexo e dinheiro andam juntos. Rânia se vê então dividida entre dois mundos.
Nesta entrevista à Radio Nederland, Roberta Marques fala sobre o filme, sobre sua ligação com a dança e as expectativas em relação ao Festival de Roterdã.
Como você definiria o seu filme?
O ‘Rânia’ conta um pedaço da vida de uma garota de uma comunidade de Fortaleza que tem o sonho de dançar, e este sonho pra ela, na verdade, é uma metáfora para transformar sua vida. Então é um filme sobre este desejo de uma adolescente que tem uma conexão com a arte, no caso dela com o corpo e com a dança, e não tem exatamente os meios para elaborar este desejo nem condições para se desenvolver numa sociedade que é culturalmente árida, ainda mais vindo da classe baixa no Brasil.
Acho que é um filme que tem carisma. É uma história social brasileira, mas ele não é tratado de uma forma sócio-realista. No filme a garota tem uma amiga que é garota de programa. Ela conhece uma coreógrafa que vem de fora e fica meio que na dúvida sobre qual caminho seguir.
Uma coisa que precisa ser falada é sobre a Graziela Félix, que é uma atriz novata, que vem da dança, mas da dança como integração social, no bairro da Barra do Ceará, em Fortaleza, que é uma comunidade de baixa renda. Eu acho que este foi, na verdade, o grande interesse desde o começo do projeto: olhar para esses adolescentes no Brasil que têm talento pra arte, e que não têm meios de desenvolver e trabalhar com isso. Ela ter feito este filme, ter sido realmente a escolha perfeita, e ter se saído tão incrivelmente... O mérito deste filme é muito dela. Ela mostra o quanto uma garota nestas condições pode dar e pode brilhar.
Você já fez vários filmes que envolviam dança de alguma forma. De onde surgiu a sua ligação com a dança?
Minha história com a dança surgiu na minha casa. Tenho duas irmãs que eram bailarinas, e eu, com 15 anos, comecei a fotografar os espetáculos que elas faziam em academias em Fortaleza, e comecei a despertar muito esse olhar, essa curiosidade sobre o retrato do corpo. Quando estudei na Rietveld Academie isso se fez muito presente e muito claro. Eu tinha uma curiosidade de desenvolver isso. Tinha visto, havia alguns anos, uma coisa que tinha me marcado muito, que foi o filme da Pina Bausch, ‘La Plainte de l'impératrice’, e aquilo realmente ficou muito, muito marcado - uma narrativa cinematográfica, mas sem diálogo, na verdade falada através do corpo.
E no caso, a história de ‘Rânia’ é baseada em alguém que você conhece?
O filme não é baseado na história de uma pessoa, é baseado em pesquisas. E claro que a história é fantasiada, romantizada também, mas não de uma forma extrema. Mas, com certeza, como a Rânia, existem várias garotas no Brasil e em outros países também. Tanto no sentido de serem garotas que têm o talento para dançar e não têm condições de desenvolver este talento, como no sentido do outro aspecto do filme, que são meninas que estão nessa situação e que são capazes de se virar de formas um pouco mais extremas para sobreviver e para se transformar dentro desse mundo contemporâneo, tropical, que é tão complexo.
E quais são as suas expectativas em relação a Roterdã?
Estou tentando não ter nenhuma expectativa, porque tem tantos filmes, e tantos filmes bacanas. Mas ao mesmo tempo, estou com o coração quente, porque é um pouco a minha casa também. Moro na Holanda já há tanto tempo – nos últimos anos entre a Holanda e o Brasil -, Roterdã mostrou o meu primeiro curta, que foi meu projeto de finalização da Rietveld, em 1998, e depois de tanto tempo voltar com um longa é bem bacana.
Tem tantas pessoas aqui na Holanda que foram importantes para a minha formação. Acho que estou mais me conectando com isso, com a sensação de dividir um prazer com amigos, com profissionais. Porque o festival em si, sim, é grande, eu tenho que fazer negócios lá, tentar vender este filme. Agora, com um primeiro longa é muito difícil ter um termômetro. Estou curiosa com o que o público vai achar, a crítica também, mas acho que um filme finalizado é um filho no mundo. Estou preparada para o que der e vier. Espero que seja bom, espero que seja bem bom!
Vencedor da mostra Novos Rumos - Première Brasil, no Festival Internacional do Rio de Janeiro, ‘Rânia’ será exibido em quatro sessões da mostra 'Bright Future' do Festival de Roterdã, nos dias 29, 30 e 31 de janeiro, e 4 de fevereiro.






























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