Em Camarões, os pais se utilizam de vários métodos para atrasar o desenvolvimento sexual das adolescentes. Alguns 'massageiam' os seios em desenvolvimento das garotas, técnica também conhecida como ‘repassage dês seins’, ou 'passar seios a ferro'.
Por Anne Mireille Nzouankey
Gisèle Nga sabe mais do que a maior parte das pessoas sobre a prática de passar seios a ferro. Aos 10 anos de idade, a mãe costumava massagear os seios dela com uma pedra quente. “A pedra estava tão quente que ela tinha que usar um pedaço de tecido para conseguir segurá-la”, relembra.
Atrasando a atividade sexual
Há muitos casos como o de Gisèle em Camarões. Em 2010 uma pesquisa revelou que, em média, 24% das adolescentes do país tinham tido os seios queimados. Esta antiga tradição em Camarões é raramente discutida em público, é considerada tabu, como tudo aquilo que se relaciona com sexualidade.
A prática pretende barrar o desenvolvimento dos seios para que a adolescente pareça mais jovem. Muitos pais temem que suas filhas fiquem grávidas tão logo seus seios se desenvolvam e, por isso, parem de frequentar a escola. “Tão logo os seios das meninas começam a se desenvolver, elas se tornam atraentes para os homens e, se elas engravidam, não terão condições de continuar com os estudos”, explica Madeleine Nga, mãe de Gisèle.
Problemas de saúde
De acordo com Nzhié, do Hospital Central de Laundê, passar os seios a ferro pode ter influências psicológicas negativas nas vítimas, tais como complexos corporais, desordens de personalidade e frustrações sexuais.
No nível físico, passar o seio a ferro causa queimaduras, algumas vezes com cicatrizes permanentes. “Massagear os seios das adolescentes com pedra quente também pode causar o desenvolvimento de úlceras, cistos, infecções e até mesmo câncer de mama”, explica Nzhié. Em alguns casos, observa-se o total desaparecimento ou dissimetria do seio (com um seio maior do que o outro).
Saúde reprodutiva
Ainda assim, essas medidas drásticas não previnem necessariamente a atividade sexual das jovens. “Há muitas meninas em nossa associação que engravidaram na adolescência, apesar da ausência dos seios”, explica Sarah Ako, de uma associação para jovens mães.
Um número crescente de organizações como a Rede Nacional da Associação de Tias (RENATA) está agora lançando campanhas para educar as mães sobre a importância da educação sexual ao invés de passar os seios a ferro para prevenir a gravidez das adolescentes. Espera-se que garotas como Gisèle sejam poupadas dos efeitos físicos e psicológicos dessa prática radical.
Passar seios a ferro na África
Passar seios a ferro é uma prática tradicional na África Ocidental e Central. De acordo com a Agência Alemã de Desenvolvimento, GTZ, uma em cada quatro adolescentes são submetidas à prática em Camarões, mas ela também é encontrada no Chade, Togo, Benin e Guiné.




























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