Quem vem morar na Holanda em geral se espanta ao descobrir que no país grande parte das mulheres dá à luz em casa, com parteira, sem nenhum tipo de anestesia. É um caso único entre os países desenvolvidos.
Cerca de 30% dos partos realizados na Holanda acontecem em casa, contra pouco mais de 2% na Grã-Bretanha, por exemplo. Esta porcentagem poderia ser ainda maior – 60% das holandesas optam pelo parto natural com parteira -, mas metade dos partos iniciados em casa acabam no hospital devido a complicações, comuns principalmente quando se trata da primeira gravidez.
O medo do desconhecido e de possíveis complicações faz com que a maioria das brasileiras residentes na Holanda opte por dar à luz no hospital, mas existe uma certa pressão para que o parto aconteça em casa.
"Eu acho um pouco irresponsável, pra falar a verdade”, diz a brasiliense Simone Mattar Altoé Peppelenbos, que mora há 5 anos na Holanda. “Se houver alguma complicação, eu acredito que seja mais difícil eles poderem te ajudar e ajudar o seu filho dentro da sua casa. Por exemplo, meu irmão nasceu com a glote fechada e teve que ser operado de urgência na mesma hora. E se tivesse acontecido isso com meu filho? Não ia dar tempo nem de chegar no hospital.”
Trauma
Simone optou por ter Noah, hoje com 8 meses, no hospital, mas mesmo assim sofreu com a mentalidade holandesa de ir até as últimas consequências para que a mulher tenha parto natural.
"Eu fiquei 25 horas em trabalho de parto, com a peridural, e daí o médico resolveu me tirar da anestesia pra eu voltar a ter as contrações. Depois de 4 horas com dor constante, eles me levaram pra mesa de cirurgia, com umas dez pessoas dentro da sala. Aí foi rápido, só que o bisturi cortou o rosto do meu filho e eles nem cogitaram costurar. Foi tudo muito traumático”, conta Simone.
Cesariana
A carioca Emanuele Marques de Haan, que há 5 anos e meio mora em Amsterdã, queria desde o início uma cesariana, mas esta opção é vetada na Holanda. A intervenção cirúrgica é feita apenas quando necessária, não pode ser uma opção da mulher.
"Minha mãe fez duas cesarianas, então pra mim, com a cultura do Brasil, de todo mundo poder escolher cesária, foi complicado aceitar ter um parto normal. Depois que eu aceitei, porque eu sabia que não ia ter opção, eu me preparei, fiz curso de grávida, aprendi a respirar, fiz yoga. Mas ter em casa, pra mim nunca foi uma opção”, diz Emanuele. “Desde minha primeira consulta com a ‘verloskundige’ (parteira) eu falei que queria ir para o hospital de qualquer jeito. Eu ouvi várias histórias no meu curso de grávida, de outras mães, de gente que teve que sair pela janela porque morava no terceiro andar, que teve que ir para o hospital correndo, e este tipo de estresse eu não queria pra mim. E no final das contas, do jeito que foi o meu parto, foi muito melhor eu já estar no hospital.”
O parto de Emanuele acabou sendo uma cesária, e também muito traumática, mas com final feliz: Erik, hoje com sete meses, nasceu saudável e ela não teve nenhuma complicação cirúrgica.
Bebê na tábua de passar
“Quando eu decidi ficar grávida, fui assistir a várias palestras sobre ter filhos na Holanda, e você ouve muitas experiências negativas e positivas”, conta a paulista Cássia Davies, que a princípio optou pelo parto no hospital.
Mas o destino quis que Luca, hoje com três anos e oito meses, nascesse em casa. “Minhas contrações estavam bem constantes e consistentes. A parteira veio e falou: ‘Realmente não dá mais para ir para o hospital, mesmo que você queira não vai dar tempo porque vai nascer no carro’. Então não foi uma escolha, foi um fato, porque o bebê estava nascendo.”
Cássia não conseguiu nem chegar ao seu quarto, deu à luz no quarto de hóspedes. “A parteira colocou o Luca em cima de uma mesa de passar roupa que estava no quarto, limpou o olhinho com a toalha. Meu Deus, primeiro mundo e de uma maneira tão primitiva, foi o que eu pensei, mas foi a melhor coisa que podia acontecer. Foi muito tranquilo. Eu recomendo. Se isso pudesse voltar a acontecer no Brasil, e tivesse uma campanha para que as mulheres tentassem mais, seria interessante.”
Ouça o depoimento de Cássia

































Ainda não tenho filhos, mas a reportagem é muito interessante. Ainda estou no processo de conhecimento da cultura e língua, mas é realmente diferente do Brasil. Eu prefiro ter o meu filho no hospital, mas em casa não deixa de ser uma opção. Voltando ao tempo da nossa avó. Sucesso para as grávidas.
Realmente, eles têm uma ideia fixa em parto normal, deixando para operar na última hora e muitas vezes acarretando complicações para os bebês ou a mãe. O meu parto foi muito traumático. Parecia filme de terror.
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