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O Golpe de 64 e a Europa - 40 anos depois

Data de publicação : 31 Março 2004 - 3:19pm | Por RNW Radio Netherlands Worldwide
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A equipe brasileira da Rádio Nederland preparou um programa especial, visando uma reflexão sobre o Golpe militar de 1964, quando completa 40 anos, no dia 31 de março. Com esse "olhar de fora", ou seja, de como a Europa viu aquele momento da vida nacional, espera contribuir para que o regime de terror, que vitimou o povo brasileiro durante mais de duas décadas, seja definitivamente uma página virada da história.

Em 1968, o Departamento Brasileiro da Rádio Nederland fez suas primeiras transmissões para o Brasil, amordaçado pela censura. Era uma voz diferenciada do oficialismo na imprensa dominada. A voz libertadora da Anistia Internacional também não se calou diante dos abusos cometidos no Brasil naquele período. Tim Cahill, especialista dessa organização humanitária, analisou para a Rádio Nederland, da sede da Anistia em Londres, o legado da violência dos golpistas.

Cidadãos brasileiros, exilados na Holanda, que não retornaram para sempre ao Brasil, com a anistia de 1979, completam esta espiada externa e falam ainda sobre o impacto do golpe de 64 no continente sul-americano. Deram depoimentos à RN o jornalista e escritor Tarcísio Lage, que se exilou na Europa, após fugir do Brasil e do Chile, e acabou fixando moradia na Holanda, e Sebastião Pafume, militar da aeronáutica exilado em 1964, que também firmou o pé em território holandês. A historiadora Mariane Wiesebron, do Departamento Latino-Americano da Universidade de Leiden, na Holanda, e especialista em Brasil, completou o olhar europeu sobre o 31 de março de 1964.

Efeito dominó do golpe militar na AL
A revolução cubana, de 1959, espalhou nos gabinetes norte-americanos ocupados com a Guerra Fria, o medo da multiplicação da experiência socialista na América Latina. O golpe militar brasileiro abriu o caminho a uma série de outros, como um efeito dominó.

Assessoria dos EUA
Assessorados por especialistas em tortura e espionagem dos Estados Unidos, os militares brasileiros estenderam as mãos a colegas no Cone Sul. A Argentina, viveu sob o coturno dos militares de 1976 a 83, com 30 mil mortos e desaparecidos, pois houve resistência ao golpe e a repressão não foi seletiva, como no Brasil e em outros países da região. No Uruguai, os militares se juntaram ao presidente golpista Juan Maria Bordaberry, para fechar o Congresso, em 1973, e instaurar um regime repressivo, até 1980. O Equador ficou sob regime militar de 1972 a 1979. No Peru, em 1975, o general conservador Morales Bermudez, depôs o colega nacionalista Juan Velasco Alvarado, que havia expropriado empresas petrolíferas norte-americanas naquele país andino. A reforma agrária e a nacionalização das minas tinham levado ao golpe militar na Bolívia, em 1964. Seguiram-se diversos golpes neste vizinho do Brasil, até a entrega do poder pelos generais, em 1982. No Suriname, ex-colônia holandesa, um golpe militar, em 1980, abriu o caminho a sucessivos golpes até a volta da democracia, em 1987.

O desarquivamento, em 1999, de volumosos documentos da CIA, do Pentágono, do Departamento de Estado e do FBI sobre o golpe de Estado no Chile, ajudou a esclarecer a responsabilidade de Washington na derrubada de Salvador Allende e na instalação no poder do general Augusto Pinochet. Desenterrou detalhes sobre as operações secretas da CIA no Chile entre 1962 e 1975, para tentar impedir que Allende fosse eleito, desestabilizar seu governo apoiar a ditadura de Pinochet, que assaltou ao poder em 11 de setembro de 1973.

Brasileiros
Os brasileiros que tinham se refugiado naquele país, que estava sob a liderança do socialista Salvador Allende, derrubado pelo golpe, não escaparam da perseguição. A maior parte do cerca de 20 exilados políticos brasileiros em território holandês na década de 70 veio do Chile, para onde tinha ido, ao fugir dos militares brasileiros. De lá se espalharam a diversos países. A França abrigou grande parte dos que abandonaram a pátria mãe pouco gentil na época. Entre os exilados e auto-exilados estavam artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e muitos outros. O professor Fernando Henrique Cardoso, que se tornou o quarto presidente após a "abertura política", o segundo através de eleições diretas, exigidas nas ruas por milhões, em 1983, também fez parte da leva de auto-exilados.

Reflexos na economia
O golpe de 64 foi preparado na caserna, mas o regime ditatorial liderado pelos militares serviu a interesses mais profundos do que os dos generais. A violenta repressão, seletiva, desarticulou o incipiente sonho da fomentação de uma revolta popular, que pudesse levar ao poder um regime de esquerda, com reformas sociais mais complexas do que as apontadas pelo presidente deposto João Goulart.

Bases
Os militares garantiram as bases para atrair investimentos estrangeiros. Grandes empresas estrangeiras e também nacionais enraizaram o processo de acumulação do capital naquele período. No auge do "milagre econômico", liderado pelo todo-poderoso ministro Delfim Neto, o Brasil saltou da quadragésima oitava posição para o oitavo lugar no ranking da economia mundial, caindo três pontos depois.

A meta de trair capitais estrangeiros, oferecendo-lhes possibilidade de lucros consideráveis e estabilidade política, consta no Plano de Ação Econômica (PAEG), elaborado durante o governo Castelo Branco (1964 a 67), e foi perseguida durante todos os governos militares, até 1985. Controlar a inflação, que era de mais de 70% ao ano, através da contenção de créditos e salários, também era meta estabelecida no PAEG. Grande parte do apoio da classe média conservadora ao golpe militar foi dado por causa da promessa de baixar a inflação, além de conter a esquerda. No entanto, no quase apagar das luzes do regime, em 1984, a inflação chegou a 223%, e o povo estava novamente nas ruas, com a campanha contra a carestia.

Concentração de renda
Arrocho salarial, controle do mercado interno, impossibilitando o consumo pelas massas populares, aumento do desemprego, deterioração dos serviços públicos e fechamento de todos os sindicatos foram reflexos da política econômica verde-oliva. Do outro lado, os militares favoreceram abertamente ao grande capital e ao mercado de consumo de luxo, bem como à exportação, que garantia entradas para pagamento da dívida externa, que saltou de menos de quatro para 100 bilhões de dólares, no período militar.

O desenvolvimento econômico garantido pelos militares não representou os avanços sociais prometidos. O capital estrangeiro foi aplicado em projetos megalomaníacos e infrutíferos como a usina nuclear de Angra dos Reis, apenas para citar um exemplo. A concentração de renda aumentou mais ainda, no processo de "fazer o bolo crescer, para depois dividir", na expressão dos ministros tecnocratas do período militar. Sem repartir o bolo, o Brasil passou a ser o país com a pior distribuição de renda no planeta. Os serviços públicos se deterioraram e a mentalidade mercantil avançou em diferentes setores. Esta estrutura produtiva não foi mudada, com a abertura política, lenta e gradual, de 1974 a 84, nem nos governos que se sucederam. E as bases econômicas instituídas pelos militares se consolidaram. Os generais se retiraram da vida política, mas permaneceram na retaguarda, reciclando-se e os interesses que defendiam jamais foram tocados. As vítimas foram esquecidas, a anistia valeu também para torturadores e para quem cometeu abusos do poder, não havendo punição para aqueles crimes cometidos pelos que assaltaram o Estado, a partir de 31 de março de 1964.

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