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Micro-financiamentos de 'pessoa-a-pessoa'
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Accra, Gana
Accra, Gana

Micro-financiamentos de 'pessoa-a-pessoa'

Data de publicação : 25 Março 2010 - 4:18pm | Por Mirjam van den Berg (RNW)
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Mudar a vida de alguém por meio de um empréstimo. Esta é a ideia por trás da Kiva, a mais popular organização de microcrédito ‘pessoa-a-pessoa’. Em apenas quatro anos, a Kiva, fundada em São Francisco (EUA), atraiu mais de 650 mil pessoas que emprestaram quase 115 milhões de dólares a cerca de 284 mil empresários em países em desenvolvimento.

Sentimento de proximidade
É a simplicidade das transações da Kiva e sua abordagem pessoal que atraem tantas pessoas, de acordo com Pim van Wel, que emprestou dinheiro a 19 pessoas em várias partes do mundo nos últimos dois anos: “Gosto do fato de que eu não tenho que ser um banco para ajudar as pessoas a estabelecer seu negócio próprio. Sei para quem estou emprestando e que propósito irá servir. É este sentimento de proximidade que torna emprestar através da Kiva muito mais agradável.”

Juros
Os ‘investidores’ não recebem juros pelo dinheiro que emprestam pela Kiva e as instituições de microcrédito também não pagam juros à Kiva. No entanto, os intermediários cobram juros de seus clientes. Mas, naturalmente, nem tudo é lucro. Parte disso é por causa da inflação nos países em que empréstimos são feitos e da cotação das moedas locais, uma vez que o pagamento a quem emprestou é feito em dólar.

O Sinapi Aba Trust cobra entre 18% e 37% de juros, dependendo do tipo de microcrédito ou micro-seguro escolhido pelo cliente. Joyce Owusu-Dabo: "Nossos juros estão entre os mais baixos de Gana. Os bancos locais nos cobram 29% por um empréstimo, e nós trabalhamos com parceiros comerciais, que também não nos emprestam de graça. Usamos os juros que cobramos nos empréstimos financiados pela Kiva para manter nossas taxas razoáveis".

Funciona da seguinte maneira: quem quer emprestar vai até o site Kiva.org e procura entre as histórias e fotos um empresário a quem queira fazer um empréstimo, que tem o limite máximo de 25 dólares, que são então transferidos para a Kiva. A organização então transfere todo o dinheiro a um banco local de microcrédito, que financia o empreendedor. Ele ou ela paga o empréstimo em parcelas e seu ‘investidor’ recebe, em alguns meses, o dinheiro de volta, sem juros.

Críticas
Mas em outubro do ano passado, David Roodman, um pesquisador do Centro para o Desenvolvimento Global, criticou a Kiva por colocar, em parte, histórias pessoais ‘fictivas’ em seu site. Na verdade, quem empresta está garantindo as instituições de microcrédito locais, que já fizeram os empréstimos aos pequenos empresários.

Embora isso esteja claro para quem lê toda a informação no site da Kiva, algumas pessoas que emprestaram dinheiro através da organização ficaram surpresas com a notícia.

Financiando sonhos
Irene Vermeij, que financiou 36 empréstimos, sabia sobre os intermediários, mas ainda se sente conectada às pessoas às quais acreditava estar emprestando dinheiro. “Eu admiro pessoas que têm sonhos e que trabalham duro para ter uma vida melhor. Mas pensando de novo, faz sentido que os empréstimos sejam feitos por inteiro por uma instituição local de microcrédito, antes que a Kiva publique em seu site. Seria assustador se o financiamento de um empréstimo fosse totalmente dependente de uma história emocionante e uma foto bonita.”

Tanto Pim quanto Irene financiaram empréstimos pré-realizados pelo Sinapi Aba Trust, uma organização de microcrédito em Gana com cerca de 90 mil clientes no país. Joyce Owusu-Dabo é a gerente de marketing dos programas: “Não seria nada prático se tivéssemos que esperar até que um empréstimo fosse inteiramente financiado pela Kiva. Nós agrupamos os clientes antes de lhes dar os empréstimos. Usamos o dinheiro que entra através da Kiva para financiar os empréstimos que já fizemos.”

Complemento
Embora o micro-financiamento pareça ser um novo começo para muitos, Adri Kemps alerta que esta não é uma solução que sozinha possa acabar com a pobreza."Saúde e segurança alimentar são igualmente importantes para o desenvolvimento de um país, mas não oferecem um bom retorno para o investimento. Micro-financiamentos podem ser um complemento importante para a ajuda ao desenvolvimento mais tradicional, mas certamente não podem substituí-la".

Infraestrutura financeira
Adri Kemps, diretor do Instituto Holandês de Captação de Recursos, aponta que as organizações intermediárias são vitais para o micro-financiamento. “Financiamento direto ‘pessoa-a-pessoa’ através da internet é quase impossível, especialmente em países em desenvolvimento. Nem todo agricultor tem uma conta bancária, mas você precisa de alguma infraestrutura financeira. Dito isso, acho que as histórias pessoais no site da Kiva deveriam refletir a realidade e não servir a propósitos de marketing.”

E embora as histórias e fotos ainda sejam de longe o elemento mais proeminente no site da Kiva, a organização mudou um pouco o tom no aspecto pessoal dos empréstimos desde que sua transparência foi questionada. Ao invés de ‘A Kiva permite que você empreste a um empreendedor específico, habilitando-o a sair da pobreza’, o slogan da organização agora diz ‘A Kiva conecta pessoas através de empréstimos para aliviar a pobreza’.

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