Nos últimos meses, não foram extremistas muçulmanos que fizeram as manchetes, mas judeus ortodoxos e católicos conservadores. Seus protestos contra mulheres ‘impuras’ e arte blasfema causaram inquietação pública. A palavra chave nos mundos que se chocam é medo.
Uma menina de oito anos de idade de Beit Shemesh (nas proximidades de Jerusalém) é atacada por judeus ortodoxos porque não se veste de forma suficientemente ‘pura’. Mulheres que querem ir de ônibus a bairros ortodoxos de Jerusalém têm que se sentar nos bancos de trás. Na França, católicos conservadores atrapalham em várias cidades uma apresentação teatral que consideram blasfema. E em Paris, o mesmo grupo destruiu uma obra de arte.
Ameaças
Desde os anos ’90, ortodoxos de diferentes correntes religiosas têm se imposto de maneira mais enfática, diz o sociólogo Sipco Vellenga, da Universidade de Amsterdã. Eles se sentem ameaçados. Mesmo em países onde há liberdade religiosa.
“Isso é visível em alguns países europeus, inclusive na Holanda. Tem a ver com discussões sobre a liberdade de educação, funcionários públicos que não aceitam o casamento homossexual ou a proibição à blasfêmia. Na Holanda, o projeto de lei sobre a proibição do sacrifício ritual de animais foi um assunto importante. Para alguns grupos ortodoxos, estas discussões trazem o sentimento de que estão sendo ameaçados, de que não terão mais a liberdade que tinham no passado.”
Reações
Tanto na França como em Israel, a indignação a respeito das ações - às vezes violentas - dos ortodoxos é grande. O rabino-chefe israelense e os bispos franceses foram unânimes em sua condenação à violência. Mas também no pedido para que se respeite a liberdade religiosa.
Os incidentes recentes são bastante variados. Na França, trata-se de uma forte reação de católicos ultraconservadores a respeito de uma peça teatral provocativa. Eles querem que a França volte a ser um país ‘temente a Deus’.
Muçulmanos ortodoxos na Europa sentem a pressão crescente para se adaptar à sociedade secular como uma limitação à sua fé.
E em Israel, os judeus ortodoxos, que também são um fator de poder político, testam até onde podem expandir seu poder. Mas foram um pouco longe demais ao se incomodarem com a maneira de vestir de uma menina de oito anos de idade. Homens e mulheres, seculares e ortodoxos, foram para as ruas de Israel protestar.
“O gênio tem que voltar para a garrafa”
Segundo Ronny Naftaniel, da organização pró-israelita CIDI, a única solução é buscar um ‘status quo’ nacional. O mundo dos ultraortodoxos, que querem dedicar sua vida ao estudo do Talmude, colide com o das pessoas que querem fazer compras no sábado.
“O gênio tem que voltar para a garrafa. Também não pode ser que uma cidade como Jerusalém, onde vivem tantos ultraortodoxos, de repente tenha transporte público no sábado e restaurantes e cafés abertos. Isto é extremamente ofensivo para estas pessoas. Também é preciso respeitá-las. Mas isso não elimina o fato de que há leis fundamentais do país que elas precisam respeitar.”
Tensões
A fim de preservar a paz, a tolerância tem que vir dos dois sentidos. Por seu lado, crentes liberais e ateus veem os radicais como uma ameaça crescente. Ainda que a influência de ortodoxos na Europa seja às vezes superestimada.
Após os anos ’60, prevalecia a ideia de que a sociedade era secular e que a importância da religião diminuiria. Os que quisessem se ater a suas crenças deveriam se adaptar. Mas a realidade é diferente, diz Sipco Vellenga.
“A imagem corrente agora é que a religião é um fator de poder e que os grupos ortodoxos não se adaptam. E que, dada a chance, tentarão pressionar o Estado secular a se voltar para a religião. Muitos acreditam que é preciso lutar para manter a cultura secular, e isso faz com que as tensões entre os grupos sejam maiores.”
Novo debate
Por enquanto, as tensões não estão resolvidas. Vellenga defende que seja criado um novo debate sobre o espaço para minorias religiosas nas realizações do estado secular. “Isso exige adaptação dos dois lados.”
Na Europa, este debate já está ocorrendo. Agora os representantes destes grupos precisam participar ativamente. Mas o que os move? Do que têm medo? “Um diálogo honesto e aberto às vezes pode fazer maravilhas.”





























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