O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro foi homenageado ontem em Utrecht num dos eventos da programação do festival Europalia, que este ano tem o Brasil como país tema. Embora tenha vários livros publicados na Holanda, João Ubaldo é conhecido principalmente por ‘Brazilië, Brazilië’ – título holandês do romance ‘Viva o Povo Brasileiro’-, que ele mesmo considera como marco crucial em sua carreira.
A homenagem começou com o tradutor de João Ubaldo para o holandês, Harrie Lemmens, contando um pouco sobre o primeiro contato que teve com a literatura do autor brasileiro, seus personagens e a sempre presente ilha de Itaparica.
Na sequência, o escritor holandês Arthur Japin fez a leitura de dois trechos de ‘Brazilië, Brazilië’, e só depois o público pôde ouvir João Ubaldo Ribeiro num bate papo em inglês com a escritora holandesa Judith Uyterlinde.
Esbanjando simpatia, João Ubaldo falou de sua infância, do primeiro contato com a literatura, aos seis anos de idade, ao folhear uma edição do ‘Don Quixote’ da coleção de seu pai – que se envergonhava porque o filho nesta idade ainda não sabia ler -, e de como anos mais tarde o pai ainda insistiria que ele nunca soube escrever, mesmo depois de ser um autor celebrado no Brasil e de ter seus livros publicados em vários outros países.
Ressentimentos
O extremo bom humor do escritor não impediu que ele deixasse transparecer o ressentimento por nunca ter tido o reconhecimento paterno, mas surpreendente foi ouvir que João Ubaldo também se ressente um pouco com o público brasileiro. Segundo ele, são raros os brasileiros que compreendem por inteiro um livro como ‘Viva o Povo Brasileiro’, comentário que o escritor depois relativizou nesta rápida entrevista à Radio Nederland:
“Que no Brasil se lê pouco eu sei, mas eu não sei se essa impressão é verdadeira, que eu sou pouco lido, que não sou compreendido. Pode ser até uma pretensão da minha parte. Mas eu acho que haverá sempre este tipo de hiato entre o escritor – entre o artista em geral – e o público, porque o artista às vezes está fazendo alguma coisa que não coincide com o seu tempo, que está antes ou depois do seu tempo, e no entanto, o artista sempre quer ser reconhecido.”
Iletrismo
João Ubaldo lamentou ainda o fato de tantos brasileiros serem iletrados e a aceitação mais ou menos geral no país do analfabetismo funcional, problema sobre o qual é bastante pessimista.
“É muito difícil. Isto teria que ser objeto de um planejamento tão abrangente, porque envolve mudança de hábitos, envolve distribuição de livros, envolve até transporte, comunicação, é um problema de grande complexidade. Exige uma abrangente reforma educacional no Brasil.”
Mas quando perguntado se tem esperança que isso aconteça, João Ubaldo foi taxativo: “Não."
Já a homenagem dos holandeses o deixou sinceramente comovido: “Foi uma ‘lindice’ essa homenagem que eu recebi. Não entendi uma palavra do que se falou em neerlandês, mas senti que havia calor naquilo, uma verdade na maneira em que as pessoas se dedicaram a dizer alguma coisa sobre mim e sobre o livro.”


































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