Radio Netherlands Worldwide

SSO Login

More login possibilities:

Close
  • Facebook
  • Flickr
  • Twitter
  • Google
  • LinkedIn
Início
Domingo 26 Maio  
Escola de imigrantes holandeses em Carambeí, Paraná.
Retrato de Mariangela Guimaraes
Map
Carambeí, Brasil
Carambeí, Brasil

Imigração holandesa – Língua de lá e de cá

Data de publicação : 29 Abril 2011 - 5:53pm | Por Mariângela Guimarães (RNW)
Assuntos relacionados:

Cem anos de imigração holandesa e, passado tanto tempo, a língua corrente entre imigrantes e descendentes em Carambeí, no Paraná, ainda é o holandês. Até os anos 60, praticamente não se ouvia outra língua por ali. E mesmo hoje, só os mais novos preferem falar português.

Descarregar

Jacob Vriesman, de 86 anos, filho de um dos primeiros pioneiros, nasceu no Brasil, mas só aprendeu o português quando teve que servir o exército. “Na escola se falava um pouco de ‘brasileiro’, mas em casa todos falavam holandês. Aprendi a falar brasileiro no quartel. Na escola, nós tínhamos das 8 às 10 aulas em brasileiro, e das 10 ao meio-dia em holandês, então a gente misturava. E a professora brasileira era alemã, então eu falava mais holandês que brasileiro.”

Seu Jacob lembra, inclusive, que muitas vezes eram os brasileiros que moravam na região que acabavam aprendendo holandês. “Alguns tinham empregados que falavam holandês. Os brasileiros é que aprenderam a falar holandês nas chácaras.”

Palavrinhas

Annie Bolt, sua esposa, nasceu na Holanda e até hoje procura ensinar um pouco da língua materna para os netos e bisnetos: “Algumas palavrinhas eles entendem em holandês. Desde pequenininhos eu falo com eles assim. E eles aprendem rápido. Quando chegamos ao Brasil, meu irmãozinho, Joãozinho, em dois meses já conversava com os amiguinhos em português. A gente não entendia nada, mas ele sim.”

Doutje Dijkstra, que emigrou para o Brasil aos 4 anos de idade, não guardou nem mesmo o sotaque, embora até hoje fale holandês em família. Mas nos primeiros tempos, também teve alguma dificuldade com o idioma. “Na escola, na aula, tínhamos que falar o português, mas entre nós era o holandês. A professora sempre chamava a atenção, mas era muito difícil pra gente, porque o holandês era a língua falada.”

Quem é mais brasileiro?
O professor Hendrik Sijpkes, conhecido por todos em Carambeí como ‘meester’ – palavra que significa mestre em holandês -, também se lembra que quando chegou ao Brasil, todos só falavam holandês na região. “Eram só holandeses. Mesmo os brasileiros falavam holandês aqui, em 1961. Mas em dez anos mudou completamente de holandês para português.”

Sijpkes sempre falou holandês com seus filhos, para que aprendessem o idioma de seu país natal, mas na escola, fazia questão de ser visto como brasileiro: “Eu brigava sempre com os alunos que diziam ‘holandês’. Eu dizia ‘meu rapazinho, você tem dez anos. Eu já estou há 40 anos no Brasil. Quem é mais brasileiro, eu ou você?’”

Comunidade fechada

Carlos Verschoor, que já é da terceira geração de holandeses em Carambeí, conta que também só aprendeu o português quando foi para a escola. “Até os meus cinco anos eu não sabia falar português. Nós morávamos aqui na colônia e tudo era em holandês. Você ia para o culto, era em holandês, para a escola dominical, era tudo em holandês. Aí, por motivo de trabalho do meu pai, fomos morar em Ponta Grossa, e foi uma grande dificuldade pra nós no começo, porque era tudo diferente. Aqui a gente vivia numa comunidade fechada, tínhamos uma cultura rígida, uma cultura bem evangélica, e fomos estudar numa escola de freiras, então víamos coisas que nunca tínhamos visto antes.”

Com a mudança da família, a língua holandesa também ficou para trás. “Não falávamos mais holandês em casa justamente porque morávamos em Ponta Grossa. Todos os nossos amigos, a escola, tudo era em Ponta Grossa, então era em português. Enquanto nossos primos que moravam em Carambeí ainda falavam holandês.”

Exigência
Já Willemke Struiving, conhecida pelo apelido de Panoka, aprendeu o holandês na marra, por exigência do pai. “Nós somos uma família de oito, com o pai e a mãe dez. E antigamente, quando a gente almoçava junto, meu pai dizia ‘Hollandse praten of hou je mond’. Era uma exigência dele falar o holandês. Todo mundo ficava quieto, mas todos nós sabemos falar holandês.”

E embora também quisesse passar a língua para seus filhos, hoje com 19 e 18 anos, Panoka não conseguiu ser tão rígida como seu pai. “A língua, infelizmente nós não conseguimos passar. Tanto Gijs, meu marido, como eu falamos holandês, mas nós começávamos a falar holandês com eles e terminávamos com o português. Infelizmente eles não sabem falar holandês. Só entendem quando nós falamos mal deles”, brinca. “Aí eles captam alguma coisa.”

A língua em transformação

Com o tempo, o holandês falado em Carambeí foi se transformando e ganhando influência do português. Com isso, surgiram novas palavras e expressões. Alguns exemplos:

Português
caminhão
palanque
Ponta Grossa
banhado
carroça
oficina
portão
gravar
tocar o gado
telefonar
silagem
praia
clubinho
puxa vida
lutar
namorar
relogio
estudar
caboclo
cadeia
empobrecer
embreagem
polia
cerca
eles
ônibus
jogar
Carambeiano
caminjon
palanck
Ponte Gross
banhade
kaross
oficine
perton
graveren
koeie tokke
telefoneren
silage
praie
kluppie
poetje vide
loeteren
namoreren
relogie
studeren
kaboekel
kadee
verkaboekelen
embriagi
pulie
sirk
heulie
ónibus
gooien
Holandês
vrachtwagen
tribune

moeras
kar
garage
poort
opnemen/afdrukken
koeien opdrijven
bellen
kuilvoer
strand
clubje
tjeetje
vechten
vrijen
horloge
leren
halfbloed
gevangenis
verpauperen
drijfwerk
katrol
hek
hen
bus
spelen

Debate

Dirceu Wander Broock (van den Broecke) 25 Maio 2013 - 1:11am / Brasil

Há alguma publicação contendo informações e dados sobre os holandeses vindos para Santa Catarina no ano de 1858. Muito me interessa saber já que sou bisneto do holandês Daniel van den Broecke (Daniel van der Broock) e os dados que tenho são parcos, especialmente relativo ao inicio da vida daquelas famílias: van den Broecke, Bogaard, Driessen, Noorthoek, de Oude, van Vessum, Verkruijsse, Wensch. Em 1861 vieram: Vermeulen, De Freyn, Bugmann, Berchmeyer e Schneider.
Pela ajuda que alguém possa dar-me, agradeço muitíssimo.
Dirceu Wander Broock

Vinicius 16 Janeiro 2013 - 1:50pm / BR/NL

Ótima reportagem! Interessante ver a "holandização" de palavras em português... mas o "gooien" está certo para "jogar" no sentido de "arremessar", "atirar", pois em português a palavra "jogar" possui os dois significados (gooien/spelen).

Elcarmo 10 Abril 2012 - 6:01am / Brasil

Fui e sou um entusiasta da imigração.O ser humano tem direito de escolher o lugar ou país onde quer construir sua vida. A imigração é benéfica tanto para o imigrante, como para o país escolhido e até para o país de origem. Quantos imigrantes não ajudaram seus parentes que ficaram em seu país? Isto é muito comum, logo há entrada de divisas para o país de origem. Quanto ao país escolhido é de se acentuar a força de trabalho que recebe, portanto benefício economico,além de seu enriquecimento com encontro de culturas. Muitas personagens do mundo ou foram imigrantes ou filhos de imigrantes, como Henri Kinsiger (alemanha), Kirk Douglas (Russia) Kennedy (Irlanda) Sarkozy (Hungria. Aqui no Brasil tivemos Portinari, Juscelino Kubitschek,(tcheco Kubíček)único presidente de origem cigana no mundo, e agora Dilma Roussef de origem Bulgara. Por que então não se incentivar a imigração. Sejam bem-vindos ao Brasil todos os holandeses que queiram aqui residir.

Joni Hoppen dos Santos 13 Junho 2011 - 5:35am / Brazil

Olá pessoal, linda, linda linda reportagem. Foi muito legal ouvir o sotaque das pessoas e os dilemas pelos quais elas passaram. Hoje, nem o Brasil nem a Holanda são os mesmos países por isso esse registro histórico é tão valioso. Vivi 2 anos na Holanda e fiz um pequeno vídeo que talvez possa contribuir com essa mistura Brasil e Holanda que ultrapassa as barreiras linguísticas aqui esta o link http://bit.ly/joNZeM
Parabéns pela reportagem.

Patricia Schor 3 Maio 2011 - 10:04am / Holanda

Ótimo artigo, Mariângela! É importante lembrar os holandeses que eles também já foram imigrantes e que, diferente de nós, imigrantes na Holanda, não foram submetidos a toda uma legislação que obriga o aprendizado da língua (mas que não dá condições de aprendê-la) e que estigmatiza os que falam outras línguas. Ainda, o multilingualismo, como se lê no seu artigo, é um grande presente que a gente dá para os filhos.

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
  • Marcadores de HTML permitidos: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd> <p> <br>
  • As linhas e os parágrafos quebram automaticamente.
  • Endereços de páginas web e endereços de e-mail são transformados automaticamente em ligações.

Mais informação sobre as opções de formatação

Vídeos

Holanda: bigode laranja para a Eurocopa
Ruas cor de laranja, bandeiras vermelhas, brancas e azuis e decoraç...
Pastores sonham com dias melhores
Pastores estão lentamente desaparecendo da paisagem holandesa....
Recordes na venda de arte moderna
Na casa de leilões Christie’s em Amsterdã, obras de...