Cem anos de imigração holandesa e, passado tanto tempo, a língua corrente entre imigrantes e descendentes em Carambeí, no Paraná, ainda é o holandês. Até os anos 60, praticamente não se ouvia outra língua por ali. E mesmo hoje, só os mais novos preferem falar português.
Jacob Vriesman, de 86 anos, filho de um dos primeiros pioneiros, nasceu no Brasil, mas só aprendeu o português quando teve que servir o exército. “Na escola se falava um pouco de ‘brasileiro’, mas em casa todos falavam holandês. Aprendi a falar brasileiro no quartel. Na escola, nós tínhamos das 8 às 10 aulas em brasileiro, e das 10 ao meio-dia em holandês, então a gente misturava. E a professora brasileira era alemã, então eu falava mais holandês que brasileiro.”
Seu Jacob lembra, inclusive, que muitas vezes eram os brasileiros que moravam na região que acabavam aprendendo holandês. “Alguns tinham empregados que falavam holandês. Os brasileiros é que aprenderam a falar holandês nas chácaras.”
Palavrinhas
Annie Bolt, sua esposa, nasceu na Holanda e até hoje procura ensinar um pouco da língua materna para os netos e bisnetos: “Algumas palavrinhas eles entendem em holandês. Desde pequenininhos eu falo com eles assim. E eles aprendem rápido. Quando chegamos ao Brasil, meu irmãozinho, Joãozinho, em dois meses já conversava com os amiguinhos em português. A gente não entendia nada, mas ele sim.”
Doutje Dijkstra, que emigrou para o Brasil aos 4 anos de idade, não guardou nem mesmo o sotaque, embora até hoje fale holandês em família. Mas nos primeiros tempos, também teve alguma dificuldade com o idioma. “Na escola, na aula, tínhamos que falar o português, mas entre nós era o holandês. A professora sempre chamava a atenção, mas era muito difícil pra gente, porque o holandês era a língua falada.”
Quem é mais brasileiro?
O professor Hendrik Sijpkes, conhecido por todos em Carambeí como ‘meester’ – palavra que significa mestre em holandês -, também se lembra que quando chegou ao Brasil, todos só falavam holandês na região. “Eram só holandeses. Mesmo os brasileiros falavam holandês aqui, em 1961. Mas em dez anos mudou completamente de holandês para português.”
Sijpkes sempre falou holandês com seus filhos, para que aprendessem o idioma de seu país natal, mas na escola, fazia questão de ser visto como brasileiro: “Eu brigava sempre com os alunos que diziam ‘holandês’. Eu dizia ‘meu rapazinho, você tem dez anos. Eu já estou há 40 anos no Brasil. Quem é mais brasileiro, eu ou você?’”
Comunidade fechada
Carlos Verschoor, que já é da terceira geração de holandeses em Carambeí, conta que também só aprendeu o português quando foi para a escola. “Até os meus cinco anos eu não sabia falar português. Nós morávamos aqui na colônia e tudo era em holandês. Você ia para o culto, era em holandês, para a escola dominical, era tudo em holandês. Aí, por motivo de trabalho do meu pai, fomos morar em Ponta Grossa, e foi uma grande dificuldade pra nós no começo, porque era tudo diferente. Aqui a gente vivia numa comunidade fechada, tínhamos uma cultura rígida, uma cultura bem evangélica, e fomos estudar numa escola de freiras, então víamos coisas que nunca tínhamos visto antes.”
Com a mudança da família, a língua holandesa também ficou para trás. “Não falávamos mais holandês em casa justamente porque morávamos em Ponta Grossa. Todos os nossos amigos, a escola, tudo era em Ponta Grossa, então era em português. Enquanto nossos primos que moravam em Carambeí ainda falavam holandês.”
Exigência
Já Willemke Struiving, conhecida pelo apelido de Panoka, aprendeu o holandês na marra, por exigência do pai. “Nós somos uma família de oito, com o pai e a mãe dez. E antigamente, quando a gente almoçava junto, meu pai dizia ‘Hollandse praten of hou je mond’. Era uma exigência dele falar o holandês. Todo mundo ficava quieto, mas todos nós sabemos falar holandês.”
E embora também quisesse passar a língua para seus filhos, hoje com 19 e 18 anos, Panoka não conseguiu ser tão rígida como seu pai. “A língua, infelizmente nós não conseguimos passar. Tanto Gijs, meu marido, como eu falamos holandês, mas nós começávamos a falar holandês com eles e terminávamos com o português. Infelizmente eles não sabem falar holandês. Só entendem quando nós falamos mal deles”, brinca. “Aí eles captam alguma coisa.”
| A língua em transformação
Com o tempo, o holandês falado em Carambeí foi se transformando e ganhando influência do português. Com isso, surgiram novas palavras e expressões. Alguns exemplos: |
| Português caminhão palanque Ponta Grossa banhado carroça oficina portão gravar tocar o gado telefonar silagem praia clubinho puxa vida lutar namorar relogio estudar caboclo cadeia empobrecer embreagem polia cerca eles ônibus jogar |
Carambeiano caminjon palanck Ponte Gross banhade kaross oficine perton graveren koeie tokke telefoneren silage praie kluppie poetje vide loeteren namoreren relogie studeren kaboekel kadee verkaboekelen embriagi pulie sirk heulie ónibus gooien |
Holandês vrachtwagen tribune … moeras kar garage poort opnemen/afdrukken koeien opdrijven bellen kuilvoer strand clubje tjeetje vechten vrijen horloge leren halfbloed gevangenis verpauperen drijfwerk katrol hek hen bus spelen |














Há alguma publicação contendo informações e dados sobre os holandeses vindos para Santa Catarina no ano de 1858. Muito me interessa saber já que sou bisneto do holandês Daniel van den Broecke (Daniel van der Broock) e os dados que tenho são parcos, especialmente relativo ao inicio da vida daquelas famílias: van den Broecke, Bogaard, Driessen, Noorthoek, de Oude, van Vessum, Verkruijsse, Wensch. Em 1861 vieram: Vermeulen, De Freyn, Bugmann, Berchmeyer e Schneider.
Pela ajuda que alguém possa dar-me, agradeço muitíssimo.
Dirceu Wander Broock
Ótima reportagem! Interessante ver a "holandização" de palavras em português... mas o "gooien" está certo para "jogar" no sentido de "arremessar", "atirar", pois em português a palavra "jogar" possui os dois significados (gooien/spelen).
Fui e sou um entusiasta da imigração.O ser humano tem direito de escolher o lugar ou país onde quer construir sua vida. A imigração é benéfica tanto para o imigrante, como para o país escolhido e até para o país de origem. Quantos imigrantes não ajudaram seus parentes que ficaram em seu país? Isto é muito comum, logo há entrada de divisas para o país de origem. Quanto ao país escolhido é de se acentuar a força de trabalho que recebe, portanto benefício economico,além de seu enriquecimento com encontro de culturas. Muitas personagens do mundo ou foram imigrantes ou filhos de imigrantes, como Henri Kinsiger (alemanha), Kirk Douglas (Russia) Kennedy (Irlanda) Sarkozy (Hungria. Aqui no Brasil tivemos Portinari, Juscelino Kubitschek,(tcheco Kubíček)único presidente de origem cigana no mundo, e agora Dilma Roussef de origem Bulgara. Por que então não se incentivar a imigração. Sejam bem-vindos ao Brasil todos os holandeses que queiram aqui residir.
Olá pessoal, linda, linda linda reportagem. Foi muito legal ouvir o sotaque das pessoas e os dilemas pelos quais elas passaram. Hoje, nem o Brasil nem a Holanda são os mesmos países por isso esse registro histórico é tão valioso. Vivi 2 anos na Holanda e fiz um pequeno vídeo que talvez possa contribuir com essa mistura Brasil e Holanda que ultrapassa as barreiras linguísticas aqui esta o link http://bit.ly/joNZeM
Parabéns pela reportagem.
Ótimo artigo, Mariângela! É importante lembrar os holandeses que eles também já foram imigrantes e que, diferente de nós, imigrantes na Holanda, não foram submetidos a toda uma legislação que obriga o aprendizado da língua (mas que não dá condições de aprendê-la) e que estigmatiza os que falam outras línguas. Ainda, o multilingualismo, como se lê no seu artigo, é um grande presente que a gente dá para os filhos.
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