Quatro fragatas de fabricação italiana deixam o porto venezuelano na cidade de Puerto Cabello no meio da noite. Elas lideram uma frota que inclui embarcações de desembarque anfíbio e navios de serviço, e seguem para uma invasão às ilhas Leeward, pertencentes ao Reino dos Países Baixos. Tem início uma ‘Guerra das Malvinas’ holandesa.
Este é o cenário de um pesadelo que tem que ser levado em conta pelos militares holandeses, considerando as repetidas ameaças do presidente venezuelano Hugo Chávez nos últimos dois anos.
Líderes políticos nas três ilhas minimizam a ameaça, mas a Venezuela ocupa um espaço preponderante, figurativa e literalmente, nas ilhas Leeward. A mais próxima, Aruba, fica a apenas 27 quilômetros da costa venezuelana. Ao mesmo tempo, uma companhia holandesa está equipando a marinha venezuelana com sistemas de gestão de combate, entre outros.
Nenhuma violação
Lars Wormgoor, porta-voz da Thales, empresa holandesa especializada em sistemas de comunicação de defesa, diz que sua companhia está equipando oito corvetas espanholas com sistemas de gestão de combate sofisticados, além de sensores eletrônicos e de rádio para a busca de alvos estratégicos. Os navios espanhóis são destinados à marinha venezuelana – um negócio de 250 milhões de euros.
Wormgoor diz que o contrato assinado por sua companhia está de acordo com as políticas do governo holandês.
Mas o pesquisador Frank Slijper, do grupo Stop the Weapons Trade (pare o comércio de armas) diz que o governo holandês viola suas próprias regras: “Realmente acreditamos que em muitos casos não se lida bem com os critérios que a exportação de armas deve atender e que as regras às vezes são usadas para acobertar”, comenta.
A organização Stop the Weapons Trade divulgou um relatório detalhando exemplos de países da União Europeia que violam as regras da UE. A posição comum da UE é que a negociação de armas não deve ameaçar a estabilidade regional nem deve ocorrer a custo do desenvolvimento sócio-econômico.
No caso da Venezuela, diz Slijper, o contrato com a Thales poderia ameaçar a estabilidade regional ao elevar a capacidade militar da Venezuela acima de outros países da região.
Mas a venda transgride um princípio ainda mais fundamental: não arme seus potenciais inimigos. “É uma situação muito estranha porque a Holanda, neste caso, fornece armas que com o tempo podem se voltar contra ela.”
‘Parceiro confiável’
De sua parte, o governo holandês está se contradizendo. Num comunicado, o governo diz que não está permitindo novos contratos com a Venezuela devido à preocupação com o curso que o país está tomando. Mas permitiu todos os contratos existentes a prosseguirem. “O governo quer ser um parceiro confiável para o setor privado”, é o argumento.
A declaração, cuidadosamente formulada, encobre as diferenças de opinião dentro do governo, que aprovou o contrato da Thales. O ex-ministro da Defesa, Henk Kamp, teria dado parecer negativo à venda, alegando que temia que a Venezuela pudesse criar “uma ameaça de conflito militar do tipo Falklands às Antilhas Holandesas e Aruba”.
Kamp perdeu esta batalha interna e alguns anos depois testemunharia as crescentes ameaças vindas da Venezuela.
A maioria dos residentes das ilhas não leva as ameaças a sério, talvez porque queiram manter as boas relações com seu vizinho mais próximo. Mas à luz das últimas ameaças de Chávez este ano, uma antilhana disse à Radio Nederland: “É uma acusação muito grave sobre Curaçao. É preciso ver bem o que ele diz.”
A Thales também forneceu sistemas de informação similares para a marinha sul-coreana. Se o conflito na península coreana se intensificar, a marinha da Coreia do Sul irá contar com sistemas de informação holandeses.





























Submeter um novo comentário