A comunidade científica holandesa está em choque com um caso de fraude sem precedentes. Possivelmente, a maior fraude da história da ciência. Diederik Stapel, agora ex-professor de psicologia social, parece ter forjado dados de pesquisa e inventado informações que foram publicadas por dezenas de revistas científicas. E todos caíram em suas mentiras.
O catedrático da Universidade de Tilburg foi demitido no início de setembro, após ter sido comprovado que utilizava dados inventados para suas publicações. Uma investigação sobre as fraudes de Stapel, que também trabalhava para as universidades de Groningen e Amsterdã, revelou que em pelo menos 30 publicações em respeitadas revistas científicas os dados eram simplesmente criados por ele. Ainda estão sendo investigadas outras 130 publicações em revistas e 24 capítulos em livros científicos.
A investigação sobre os dados fraudulentos está sendo comandada por Pim Levelt, que diz que o volume é “muito significativo e desconcertante. É muito prejudicial para as ciências na Holanda. Este caso está chamando muita atenção em todo o mundo.”
No lixo
Stapel ficou famoso, entre outros, por um estudo que concluiu que pessoas que comem mais carne são mais agressivas. Ele também publicou uma matéria na revista científica Science sobre experimentos que demonstravam que num ambiente sujo as pessoas tendiam a discriminar mais. Pesquisas e experimentos que agora podem ir para o lixo.
Cientistas holandeses reagiram chocados aos resultados da investigação de fraude. As universidades de Tilburg e Groningen estão abrindo juntas um processo. A Universidade de Amsterdã verifica se o título de doutor de Stapel pode ser retirado.
Modos refinados
O presidente da Associação Holandesa de Universidades, Sijbolt Noorda, também está chocado com o volume de fraudes no caso.
“Acho realmente inimaginável o relatório que acaba de ser divulgado. Que alguém possa agir de maneira tão enganosa tão sistematicamente. Não se trata de sucumbir por um momento a uma tentação, foram muitos anos assegurando a fraude dos experimentos.”
Stapel parece ter trabalhado de maneira muito refinada. Planejava cada pesquisa com profundidade junto a um colaborador e depois levava os questionários elaborados – como ele dizia – a escolas com as quais mantinha bons contatos. Algumas semanas mais tarde, apresentava os resultados da “pesquisa” a seu colaborador. Quando era perguntado sobre os questionários, Stapel dizia que já não os tinha mais porque não podia guardar tudo.
Abuso de poder
Mas Stapel foi ainda mais longe, conta o investigador Levelt:
“Além disso, com o poder que tinha, Stapel também intimidava os estudantes. Quando faziam perguntas, ele dizia coisas como ‘Tenho o direito de que confiem em mim’. Ele com frequência abusou de sua posição. E ainda pior, podia dizer ‘Agora tenho que pôr em dúvida sua capacidade para uma posição de doutorando’.”
Faltaram críticas
Segundo Levelt, as fraudes são trabalho unicamente de Stapel. A comissão comprovou que doutorandos e outros cientistas não sabiam do que acontecia. De acordo com a comissão, o fato da fraude não ter sido descoberta antes se deve ao “refinamento, manipulações e abuso de poder” de Stapel.
Mas as universidades também se dão conta, naturalmente, que faltou crítica científica. O debate sobre isso será com certeza grande, pois o fato de que alguém possa por tanto tempo agir desta forma sem ser desmascarado por colegas é visto como uma desgraça internacional.
O próprio Stapel declarou-se culpado por escrito. “Percebo que com esta conduta provoquei perplexidade e raiva em meus colegas diretos e pus minha área de atuação, a psicologia social, em suspeita. Envergonho-me por isso e me arrependo muito”, disse Stapel, que divulgou que está recebendo ajuda para “descobrir porque tudo isso aconteceu”.




























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