Na sala de aula, Christian Boer sempre ficava desenhando. “Eu lia o mínimo possível.” As leituras obrigatórias em voz alta eram um desastre. Disléxico, Boer formou-se como designer gráfico e decidiu adaptar o alfabeto a seu favor. “Comecei a ‘amarrar’ as letras na minha cabeça e aí fui desenhar.” (clique aqui para ler este artigo na fonte Dyslexia)
Você conseguiu ler o parágrafo acima sem problemas? Então a chance é grande que você não tenha dislexia. Para você as letras se deixam ler de bom grado. Mas para os olhos de um disléxico as letras de repente podem começar a dançar e formar a cada momento novas combinações de ‘palavras’. Como se isso não fosse suficiente, as letras ainda desaparecem, viram de ponta cabeça e mudam secretamente de lugar.
Salto sobre o cavalo
Assim, para disléxicos as letras podem se espelhar e com isso um ‘b’ vira ‘d’, ou virar em seu eixo e com isso um ‘u’ pode parecer um ‘c’.
O mais chato para disléxicos é que isso pode passar despercebido e na leitura eles cometem um erro atrás do outro. Na escola, as leituras em voz alta eram terríveis para Christian Boer.
Dislexia
-A palavra ‘dislexia’ vem do grego e é uma combinação das palavras δυς dys (‘limitado’) e λέξις lexis (‘palavra/falar’).
-Dislexia é o distúrbio mais comum de leitura.
-Pesquisas indicam que cerca de 4% dos holandeses (cerca de 600 mil pessoas) têm dislexia grave.
-Internacionalmente as estimativas de dislexia em geral ficam entre 3% e 10% da população, mas países onde se fala inglês têm as cifras mais altas (até 17,5% da população).
-A dislexia não acomete apenas crianças, mas também adultos.
-A dislexia é 1,5 vezes mais comum em homens do que em mulheres.
-A dislexia existe tanto em línguas com escrita alfabética como logográfica, portanto, também em países como China e Japão.
-Dislexia tem uma forte base hereditária.
-Cerca de 40% dos irmãos e irmãs de disléxicos também têm o problema.
-A chance de que uma criança disléxica tenha um dos pais disléxicos é de aproximadamente 60%.
-O tratamento da dislexia com base em medicação, dietas, exercícios (terapia sensomotora), óculos especiais, flashes de luz e pensamento em imagens é desaconselhado pelos especialistas.
“Naturalmente, é muito desagradável quando você não consegue fazer uma coisa, ou faz muito mal, ter que fazer diante de toda a classe. Compare com as aulas de Educação Física: se você não consegue dar um salto sobre o cavalo, mas o professor continua pedindo pra você saltar e toda vez você cai na frente de todo mundo.”
Letras ‘amarradas’
Disléxicos não pensam em palavras, mas em imagens, como num filme ou história em quadrinhos. Por isso desenhar foi fácil para Christian Boer desde criança e ele decidiu ser designer gráfico. E quando pediram que desenvolvesse seu projeto final no curso, ele viu a oportunidade: “’Amarrei’ as letras na minha cabeça e fui desenhar.”
Como para disléxicos as 26 letras do alfabeto se parecem muito, Boer trabalhou nas ‘varinhas’ e ‘rabinhos’ das letras. O ‘h’, por exemplo, recebeu uma varinha mais longa para não se parecer mais com o ‘n’. Ele também aumentou a abertura do ‘c’ para diferenciá-lo do ‘e’.
De Boer abordou o problema da movimentação das letras adaptando a gravidade ao alfabeto.
“Você pode evitar as viradas e trocas de letras colocando um contrapeso, então, para que não virassem, deixei a parte de baixo mais pesada. Para que não se espelhassem, adaptei o formato de maneira que o espelhamento ficasse difícil.”
Christian Boer também deixou as maiúsculas e a pontuação mais destacadas porque disléxicos com frequência não reconhecem o começo e o fim de uma frase.
Browser de internet
A Universidade de Twente, na Holanda, testou a fonte criada por Christian Boer durante um ano e meio dando textos de nível universitário para leitura a 21 disléxicos. O resultado: os disléxicos tiveram menos dificuldade em ler.
Boer já está vendendo a fonte em seu website. “As pessoas podem instalar em seu software de texto e no browser da internet, para que também os textos na internet e em e-mails possam ser lidos nesta fonte.” Em novembro será lançado o primeiro livro inteiramente composto no alfabeto adaptado para disléxicos.
Sons
O sucesso ainda está limitado à Holanda, mas Christiam Boer já tem recebido dezenas de cartas com reações positivas de outros países sobre suas letras. “Os e-mails não param de chegar e a visitação no meu site também está aumentando.”
A fonte de Boer realmente pode tornar a leitura mais fácil para quem tem dislexia, segundo Floor de Pont, do instituto de pesquisa em dislexia IWAL, mas não remove a causa do problema. “A dislexia é causada por uma interrupção na conexão entre as letras escritas e os sons correspondentes. Esta conexão forma a base para ler e soletrar.”
Clareza da língua
A percentagem de pessoas que sofre de dislexia pode variar muito de país para país. Na região de línguas escandinavas, uma letra ou uma combinação de letras equivale a um som, e com isso a ‘clareza da língua’ é grande. Já no espanhol ou no holandês é mais complicado. Mas nas regiões de língua inglesa muito mais gente tem problemas para ler e soletrar e a porcentagem de disléxicos chega a mais de 15%. Também há dislexia em regiões com uma outra escrita ou alfabeto, como na China ou no mundo árabe.
A nova fonte de Christian Boer não irá livrar o mundo da dislexia, mas seu design poderá tornar a leitura e a escrita mais fácil para disléxicos. É o que se percebe pelas reações dos voluntários:
“São pequenas modificações com as quais, para os disléxicos, as letras vão mudar menos de posição: ‘hei, as letras já não se viram e dançam. Tudo está mais calmo na minha cabeça’.”















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