No canteiro central da maior auto-estrada de Peshawar há uma fileira de tendas que se prolonga por vários quilômetros. As crianças brincam, arriscando a vida perto do tráfego intenso de automóveis. Essa situação leva a pensar no que poderia acontecer se uma delas fosse um pouco mais longe. Essa é a nova casa de muitos paquistaneses vítimas das chuvas.
Barraca não seria a palavra correta. Muitas vezes o abrigo é apenas um pedaço de pano que não tem comprimento suficiente para chegar ao chão. Não há privacidade, e pode-se ver tudo lá dentro. Isto deve ser particularmente doloroso por ser uma região onde as pessoas valorizam muito a privacidade.
Posses
Quase todos os abrigos estão completamente vazios pois poucos sobreviventes conseguiram salvar seus pertences. Tudo que a maioria deles tem é a roupa do corpo.
As crianças são as mais vulneráveis. Elas estão expostas à fumaça dos escapamentos dos automóveis que passam em alta velocidade pelo local. Além disso, não têm com o que brincar e ainda devem ajudar suas famílias a sobreviver.
Quando um caminhão pipa da organização humanitária Médicos sem Fronteiras chega para distribuir água potável, Maria (8) e Shama (10) correm atrás. Os grandes galões e garrafas vazios que elas carregam batem contra seus pequenos corpos.
Lama e areia
É tarefa delas levar água para a família. Agora que as enchentes diminuíram no norte do Paquistão, os pais estão ocupados tirando a lama e a areia do local onde ficavam suas residências. Novas habitações serão construídas no mesmo lugar. As mães vigiam seus inúmeros filhos; as famílias são grandes.
“É um trabalho muito duro”, queixa-se Shama. A garota está toda molhada porque pôde tomar um banho, completamente vestida, embaixo da torneira do caminhão. Ela também tem que ajudar sua mãe a tomar conta de suas quatro irmãs e de dois irmãos. Shama carrega um deles no colo. “Eu não tenho tempo para brincar”, diz ela. Não que haja qualquer espaço no meio da estrada. “Tenho saudades da nossa casa”, relembra com um jeito triste.
Ramadã
Na próxima semana é Eid ul-Fitr, a festa que marca o fim do Ramadã, mas Shama e Maria não estão esperando presentes ou coisas gostosas para comer. É a última coisa com que se preocupam. Elas estão fracas e falta higiene nos abrigos improvisados. Mais e mais crianças estão sofrendo de problemas de pele, doenças contagiosas e infecções.
Na pequena aldeia de Utmanzai, Khadija segura em seus braços sua filha de 18 meses. O rosto da criança apresenta uma erupção na pele depois que um mosquito infectado a picou. “Nós não temos mosquiteiros e repelentes”, explica Khadija. Ela não pode produzir leite suficiente para seu bebê, pois não tem tido a alimentação necessária. Mas Khadija está com sorte, sua família está pronta para mudar-se para a casa de parentes e ela recebeu uma pomada de um hospital de campanha para passar no rosto do bebê.
“Infecções oculares e diversas doenças aumentam dia após dia”, afirma o médico Fritat, que trabalha para uma agência paquistanesa de ajuda humanitária. “Nós estamos preocupados que possa haver uma epidemia”, diz ele.
Resultado
O maior problema é a magnitude do desastre. Na cidade de Charssada perto de Peshawar, um porta-voz de uma das maiores organizações de ajuda humanitária, a Al-Khidmat Foundation, fala um pouco sobre a extensão dos problemas. Em sua região, 60% dos 1,7 milhões de residentes estão lutando para sobreviver aos resultados do desastre. Mais de 20 mil casas foram completamente destruídas e quase 500 mil estão seriamente danificadas.
Ele é realista: “É impossível para nós ajudar a todos”. Ele não diz, mas a mensagem é clara: sem assistência vinda de fora, o Paquistão não conseguirá fazer isso.
Apelo televisivo
Emissoras holandesas de televisão, públicas e privadas, estão tentando levantar fundos de ajuda às vítimas das enchentes no Paquistão. Até agora, cerca de 20 milhões de euros foram arrecadados.






























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