Kon Kelei foi sequestrado pelo Exército de Libertação do Povo Sudanês quando tinha quatro anos de idade. Como criança-soldado, testemunhou as atrocidades da guerra. Fugiu para a Holanda após escapar de uma das mais longas e brutais guerras civis do continente africano.
Após uma década na Holanda e aos 27 anos de idade, Kelei retornou ao Sul do Sudão no ano passado para tentar ajudar a construir a democracia. Levou, na bagagem, seu diploma em direito internacional. Encontrou um país que se preparava para a independência, obtida após o referendo, que aconteceu em janeiro. Na ocasião, 99% dos cidadãos votaram pela divisão do país entre sul e norte, regiões que estiveram em guerra por muito tempo.
Escolher pela liberdade não é fácil. Caminhar sozinho significa criar um país sem infraestrutura prévia. O Sudão do Sul não tem um sistema civil, dispõe de apenas 50 quilômetros de estrada de macadame e uma população dispersa pelo globo.
“A escolha racional deveria ser votar pela unidade. Mas, no referendo sobre o futuro do Sul do Sudão, eu votei com o meu coração. Unidos com o Sudão do Norte poderíamos nos tornar o maior país na África, com poder político e econômico. De que adiantam os benefícios econômicos, se eles significam que você vai continuar sofrendo o que você sofreu por tantos anos? Então eu escolhi meu orgulho e votei pela separação”. Para Kelei, agora é hora de a diáspora voltar para casa e começar a construir um novo país.
Transformando vidas
Desde que retornou, Kelei montou um escritório de advocacia e também dá aulas na Universidade Dr. John Garang, ambos na cidade de Bor: “o que eu levo comigo dos tempos em que vivi na Holanda? Como professor, eu posso mudar a vida das pessoas, eu posso transformá-los. E, em um tribunal, sei que se eu não estivesse aqui eles não teriam assessoria legal. Na Holanda há muitos advogados, mas aqui eu sou o único e isso é um grande impacto”.
Durante o tempo em que viveu na Holanda, Kelei formou-se em direito internacional e trabalhou incansavelmente para colocar o Sudão na agenda, conversando com ministros do governo e trabalhando em organizações envolvidas com a reabilitação de crianças-soldados como a War Child e a Rede de Jovens Atingidos pela Guerra.
Formadores da polícia holandesa
No começo desse mês, o governo holandês decidiu prolongar a contribuição com a Missão das Nações Unidas no Sudão até meados de outubro de 2011. Todos os anos, desde 2006, a Holanda envia cerca de 30 observadores militares e policiais ao Sul do Sudão. Kelei acredita que isso ajuda, embora afirme que um comprometimento maior teria muito mais impacto: “Os policiais holandeses podem desempenhar um grande papel treinando seus colegas sudaneses na aplicação da lei e nos princípios básicos dos serviços policiais. Mas não se são enviados apenas um punhado deles a cada vez, que ficam na região apenas por alguns meses. Os holandeses deveriam ficar por um período mais prolongado para se ter um impacto real.”
Em geral, o impacto da ajuda internacional no Sudão tem sido insignificante, de acordo com Kelei. Ele diz que o conhecimento local é com frequência ignorado e que até mesmo o mais tolo dos sudaneses sabe melhor o que deveria ser feito do que o mais inteligente dos cooperantes internacionais.
O Sudão do Sul deve se tornar oficialmente um país em 9 de julho. Ainda há tensões com o Norte. O Sul deixou a mesa de negociações com o Norte há duas semanas, acusando o Norte de conspirar um genocídio no estilo do ocorrido em Darfur.
Mas, apesar das armadilhas em potencial, Keley está ansioso por uma transição. "Em 9 de julho, vou caminhar como um homem livre. Serei Kon Kelei, um orgulhoso sul-sudanês, vivendo no mais novo país do mundo."













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