Cores e texturas que remetem ao barroco mineiro ganharam presença na mais recente exposição de alunos da Gerrit Rietveld Academie, uma das principais escolas de arte da Holanda. Os quadros formavam a série de conclusão de curso de Regis Gonçalves di Coco, artista plástico brasileiro radicado em Amsterdã.
Reginaldo Gonçalves – nome de batismo do artista – nasceu e cresceu na pequena Ipatinga, no interior de Minas Gerais. Deixou o Brasil em 2002 para viver primeiro em Gana, depois em Dubai, e por fim em Amsterdã.
Embora seu trabalho em artes plásticas já venha de longa data, sua entrada para a Rietveld Academie aconteceu por intermédio de um prêmio. Em 2006, Regis - que então ainda morava na capital ganesa, Acra - foi o vencedor da bolsa de estudos concedida pela Radio Nederland em homenagem ao Ano Rembrandt com a série de fotografias ‘Bringing Rembrandt to Ghana’. Nestes trabalhos, ele reproduzia com personagens ganeses cenas de alguns dos mais famosos quadros do pintor holandês.
Cidades históricas
Hoje trabalhando principalmente com pintura, Regis ainda busca na história da arte suas principais referências. Nas telas que apresentou para a conclusão de curso na Rietveld Academie, o barroco mineiro e a religiosidade brasileira foram os pontos de partida.
“Pra fazer este trabalho, ano passado eu fiz uma viagem pelas cidades históricas de Minas. Eu já tinha uma ideia do que eu queria fazer. Dentro desta minha ideia, que era de trabalhar com a religiosidade mineira, estava aquela coisa do interior, do nosso catolicismo, as novenas e outras coisas. Iniciei este trabalho de pesquisa e junto com isso comecei a visitar as cidades históricas mineiras. Visitei muitas igrejas, museus, algumas galerias de arte antiga, para ver obras do barroco, do rococó, e tentar transportar, principalmente o trabalho do Aleijadinho, pra dentro da minha pintura”, conta.
Santos e orixás
Nas telas de Regis, a tinta óleo ganha relevos intrincados, fazendo uma ‘tradução’ para a pintura do trabalho em madeira tradicional do barroco e do rococó. Nos quadros da série intitulada ‘Celestes-Terrestres’ - à primeira vista abstratos - se desvendam altares e grutas, com aqui e ali uma pequena imagem de um santo ou orixá. Mesmo quem não conhece o barroco brasileiro ou não sabe das referências iniciais das pinturas, pode perceber a clara alusão à religião – um ponto importante para o artista.
”Eu sou católico, minha mãe sempre fazia novenas e eu sempre trabalhei muito dentro da igreja. Quando eu estava no Brasil, eu era muito ligado à igreja”, comenta Regis, que depois de se mudar para o exterior se afastou do contato constante com a religião. “Eu nunca pensei que fosse voltar às minhas origens, e tenho sentido voltar mais e mais esta coisa da religião. Pra mim, é difícil fazer uma obra no Brasil em que a gente não mostre o catolicismo ou a influência da religião no nosso país, principalmente em Minas, porque a igreja está muito presente”, constata o artista, que já planeja resgatar outros aspectos das raízes brasileiras em seu trabalho.
“Depois que a gente sai do país, começa a ver estas coisas de fora e consegue descobrir com outros olhos, ver que tem uma beleza naquele interior, naquelas referências folclóricas brasileiras, que quando a gente está lá não dá muito valor”, avalia Regis. “Eu gostaria agora de continuar fazendo este trabalho de pesquisa.”




































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