Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, a Radio Nederland publica durante essa semana uma série de entrevistas com brasileiras de destaque na Holanda.
Até o início de março ficou em cartaz em Amsterdã o balé 'Don Quixote'. A produção do Ballet Nacional Holandês contou com dois cômicos conhecidos do público holandês nos papéis de Don Quixote e Sancho Pança, o que garantiu salas cheias durante a temporada. Daniela Cardim dividiu o palco com os "famosos holandeses". A brasileira interpretou Dulcinéia, a amada de Don Quixote.
A bailarina nasceu no Rio de Janeiro e começou a fazer balé clássico aos 8 anos de idade. Aos 19, começou a dançar profissionalmente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e em 1999 entrou para o Ballet Nacional Holandês.
O sonho de dançar em uma companhia europeia a acompanhava desde a infância. A escolha por Amsterdã, no entanto, tem a ver com a estatura de Daniela Cardim: “Eu tenho 1,75m, a Holanda é um país de pessoas altíssimas e essa companhia tem uma tradição de ter bailarinas altas".
Requisitos
Apenas ser alta não é o suficiente. O Ballet Nacional Holandês reúne em seu corpo de baile os melhores profissionais de dança do mundo. O pequeno país norte-europeu não consegue, sozinho, formar bailarinos clássicos que tenham o nível desejado pela companhia. Dessa forma, jovens de todos os continentes disputam as concorridas vagas da companhia de Amsterdã.
Estar no lugar certo na hora certa também é importante: “A primeira vez que eu vim, o diretor gostou do meu desempenho, mas não tinha contrato para uma bailarina com meu perfil. Na segunda vez ele me ofereceu um contrato porque o meu nível técnico era o mesmo que o da companhia e ele precisava de uma bailarina alta”.
Daniela está nos palcos holandeses com mais freqüência do que se tivesse continuado no Brasil, o que traz vantagens e desvantagens: “No Brasil há poucos espetáculos por ano, enquanto que na Holanda você tem uma média 100 apresentações anuais. Chego a dançar 15 a 18 vezes o mesmo balé. Acho ótimo, porque tenho a oportunidade de fazer papéis diferentes na mesma peça, mas às vezes vira rotina”.
Vida de bailarina
São necessários muitos ensaios e preparo físico para manter o nível técnico. Nos dias de espetáculo, Daniela passa o dia inteiro em função da apresentação: “O aquecimento corporal e os ensaios são das 11:00 às 16:30. Depois temos um intervalo. O espetáculo começa às 20:00 e termina às 23:00”. A carga horária holandesa é muito mais pesada do que a brasileira: “No Brasil, quando você tem um espetáculo à noite, você começa a trabalhar às 17:00”.
O esforço físico faz com que a carreira de bailarino seja curta. Embora seja difícil, Daniela Cardim, de 35 anos, tomou a decisão de parar de dançar. “O contrato dos bailarinos nessa companhia é até os 38 anos, ou seja, com 38 anos você é obrigado a parar de dançar. Eu ainda não tenho 38 anos mas decidi parar. Agora está começando a ficar bem difícil lidar com dor (causada pelos machucados), com a quantidade de trabalho que a gente tem aqui. Mentalmente é difícil, eu vou ser sempre bailarina.”
'Nijinski', que fica em cartaz de 15 a 24 de junho em Amsterdã, deve ser o espetáculo de despedida da bailarina Daniela Cardim.
Coreógrafa
Cardim não pensa em se aposentar tão cedo do mundo da dança: “Vou continuar fazendo coreografias, posso dar aulas de balé ou, quem sabe, dirigir uma companhia. Eu não sei quem sou sem ser bailarina”. Como coreógrafa, ela já fez trabalhos para o próprio Ballet Nacional Holandês, para a escola do American Ballet Theater (Nova York) e para a São Paulo Cia. de Dança.
Daniela acredita que sua paixão pelo balé clássico possa ter uma explicação espiritual: "A dança sempre foi minha maneira de me expressar no mundo. Acho que sou uma pessoa que veio para o mundo com a missão de fazer do balé clássico a minha vida e de fazer com que essa forma de arte continue no mundo, que seja passada para as próximas gerações".






























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