Duas mulheres vestidas com roupas tradicionais holandesas surpreendentemente contrastam com prostitutas vestidas escandalosamente do outro lado da rua no Bairro da Luz Vermelha, em Amsterdã. Um indício de que a prostituição está cada vez mais sendo forçada a dar espaço à arte e cultura na capital holandesa.
Os turistas às vezes ficam até confusos vendo as senhoras de jeito carola no meio das mulheres despudoradas da zona de meretrício.
Cochichando, se perguntam se elas seriam prostitutas à moda antiga ou então meninas de programa disfarçadas. Mas nada disso, elas não são prostitutas. Tineke de Smet e Bregtje Buishand trabalham para o Zuiderzee Museum.
O Zuiderzee Museum apresenta a arte, o design e o legado cultural holandês na interface água - terra. O nome vem do antigo mar interior na Holanda, que foi separado do Mar do Norte por um dique em 1932, o Zuiderzee, Mar do Sul em holandês.
No número 63 do Oudezijds Achterburgwal - centro do Bairro Vermelho - as trabalhadoras da arte tentam atrair turistas estrangeiros para o museu na cidade velha de Enkhuizen.
"Temos muitos visitantes, mas a quantidade de turistas japoneses, norte-americanos e espanhóis ainda é muito pequena e esperamos trazê-los para cá", afirma o curador do Museu André Groeneveld.
Profissão antiga
O museu está instalado em uma antiga casa abandonada declarada imprópria para habitação. No lugar das prostitutas, se vê cortinas azuis de Delft na janela da casa. Nos fundos há uma pintura do IJsselmeer (Lago IJssel, antigo Zuiderzee).
Na entrada, dois pés de tamancos de madeira pairam no ar, já no parapeito da janela, ficam duas estatuetas de cachorros, um antigo código para indicar se as prostitutas estavam livres ou ocupadas. Com isso, o museu mostra um pouco através do espetáculo da tradição, a profissão mais comum do bairro da Luz Vermelha.
Tineke de Smet e Bregtje Buishand, ficam na calçada fazendo tricô e bordados. As roupas que usam não são de nenhuma comunidade em especial, explica Andre Groeneveld. As duas mulheres vestem uma mistura de estilos de roupas tradicionais.
Na Holanda antiga, cada região tinha suas roupas típicas. "Fizemos isso de propósito para evitar ofensas e reações negativas nas comunidades". Alguns passantes, claramente à procura de outro tipo de divertimento simplesmente ignoram a cena. Já os turistas que demonstram mais interesse são presenteados com informações sobre o Zuiderzee Museum e, se quiserem, podem tirar uma foto com as duas mulheres.
Confusão
Bregtje Buishand diz que é uma experiência única. "É óbvio que sou do interior, mas não sou nenhuma inocente. Um dia um turista alemão veio até mim e perguntou: Você que é a Paula? Duas casas à frente havia um cartaz na porta fazendo propaganda dos serviços de uma prostituta chamada Paula. Pedi desculpas por decepcioná-lo, é preciso senso de humor para sobreviver por aqui".
Muitos turistas não sabem o porquê das duas mulheres em roupas tradicionais. Um italiano que passava pelo local acredita tratar-se de um protesto contra a nudez no bairro da Luz Vermelha.
Uma espanhola pensava que elas eram prostitutas disfarçadas. Quando descobre que se trata de uma promoção do museu, recomenda que as duas coloquem um aviso dizendo: "Não é preciso pagar nada, não somos putas".
Cultura versus prostituição
A combinação surpreendente de costumes tradicionais e prostitutas é o resultado de uma nova política em Amsterdã. Em poucos anos a Câmara Municipal fechou um quarto de todas as "vitrines" usadas para prostituição e alguns dos maiores bordéis da área. Foram substituídos por lojas, designers de modas e espaços de arte e cultura.
A introdução de arte e cultura mudou completamente a aparência do Bairro da Luz Vermelha. "Eu estou muito satisfeito com a mudança", diz um morador da região. "Esta é uma boa combinação. A prostituição não precisa necessariamente sumir daqui, mas seria bom se ela deixasse de ser uma marca do bairro".























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