Piratas somalis são homens de negócio que sabem exatamente o que estão fazendo. Negociar a liberação de um navio não é uma tarefa fácil. A Rádio Holanda Internacional conversou com um experiente negociante holandês.
As fotografias e filmes no Golfo de Áden exercem uma atração especial. Jovens, com armas a tiracolo, em pequenos barcos a caminho de um grande - e vulnerável - navio de mercadorias. O romantismo que irradiam estas imagens é, talvez, moderado, se se tem a idéia de que não deixa de ser uma forma de furto e sequestro. Por outro lado, essa é uma realidade parcial. O negociante Hans Slaman travou negociações de dois meses pelo navio belga que foi sequestrado e tem uma imagem mais completa sobre esses piratas do século XXI.
Ele tem muita experiência em trabalho com riscos de segurança, no governo e como fundador e diretor de uma empresa de consultoria em como lidar com situações de risco. Ele foi procurado pelos donos do navio belga Pompei, que foi sequestrado a 18 de abril por esses jovens piratas somalis.
Negociação
A primeira questão é: como entrar em contato com piratas? “Eles te ligam, você não”, explica Hans. Principalmente no começo, eles têm o controle da situação. Nosso entrevistado diz: “Eles têm algo que você com certeza quer de volta". Nesse caso um navio com dez tripulantes a bordo.
“Chegou um e-mail vindo do navio que dizia que era para entrarmos em contato com um tal de Abdi. Ele se apresentou como um negociador experiente e habilidoso.” Durante 68 dias Abdi foi o único contato entre os donos do navio e os líderes dos piratas.
"Abdi deixou claro que não era ele quem tomava as decisões. Cada assunto que discutíamos ele tinha que apresentar aos líderes de clã." Só para esclarecer: a bordo do Pompei estavam apenas guardas do ranking mais baixo. Os chefes estavam no continente, e Abdi precisava se entender com eles para depois poder entrar em contato com Hans.
O inverso também era válido: “Eu até podia decidir como passar a mensagem dos proprietários do barco, mas não podia mudar nada no conteúdo da mensagem”.
Três níveis
O conteúdo mais importante da mensagem era a soma de dinheiro a ser paga para o resgate. Mais especificamente, a quantia que os piratas exigiam pela liberação do Pompei - seis milhões de dólares só pra começar. E a quantia paga no final, menos de 2,8 milhões, segundo Hans Slaman.
As negociações levaram cerca de dois meses e 171 telefonemas entre Slaman e Abdi. Foi uma tarefa árdua, afirma o negociador holandês. "Um jogo em três níveis: entre os líderes de clãs, entre os jovens armados a bordo, e Abdi".
“Havia momentos em que achávamos ter entrado em acordo, mas sempre surgiam novos problemas, sempre a respeito de dinheiro. Parecia que os piratas no mar não concordavam com a quantia estipulada. Abdi também negociava para si mesmo, pedia comissão, fazia jogo duplo”, conta Hans Slaman.
Hans chama isso de um “modelo de negócios heterodoxo”, mas a pirataria na Somália é uma empresa bem engendrada e líderes de clãs e negociadores não são ignorantes, eles sabem exatamente o que fazem.
Última chamada
Como terminou com o Pompei? Hans Slaman não conta em detalhes, mas no dia 27 de junho a “entrega” do dinheiro foi feita. Dinheiro em embalagem à prova d'água é jogado no mar, os piratas buscam o pacote e contam o dinheiro. Em seguida informam que tudo está conforme e que eles abandonarão o navio. A conversa número 171 é o telefonema que traz alívio a todos: o capitão conta que o último pirata abandonou o navio.
























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