Mulher brasileira,
quando o carnaval chegar, vai ter um monte de gringo lindo querendo levar você de souvenir!
Digo mulher, porque o principal produto brasileiro exportado é mesmo a mulher.
E vocês têm toda a razão, que coisa feia eu chamar mulher de produto.
Mas o que é que a baiana tem?
Sei lá, mas é só falar que você é brasileira e pronto, o gringo fica de quatro.
Marina Morena,
pense muito bem antes de pular na garupa do cavalo daquele príncipe encantado loiro de olhos azuis.
E gringo.
Poderá viver como eu, em eterna crise de identidade.
Eu me chamava Bia Corrêa quando morava no Brasil.
Mas aqui na Holanda ninguém entendia o Bia, achavam que eu chamava cerveja (‘bier’).
Então eu virei a Bea.
E não se fala Béa, como no Rio, viu cariocas?
Mas Bêa.
Pois bem, meu passado brasileiro até hoje não consegue me chamar de Bea Correa.
Então quando ligo para alguém é aquela dificuldade:
— Oi, é a Bêa Correa.
— Quem?
— A Béa Correa.
— Quem?
— A Bia Corrêa, sua prima, idiota.
Garota de Ipanema,
pode ser que você fique um tanto chocada ao descobrir que não é branca.
Branco não come pamonha, não nasce em Araraquara e não é umbandista.
E também não gosta muito de tomar banho.
Tigresa,
muito cuidado ao casar com um gringo, porque você vai virar gringa também.
Gringa aqui e gringa acolá.
Descobri isso nessa última viagem ao Brasil.
Entrava no táxi, explicava a direção e pronto:
— A senhora é de que país?
— Eu sou do Brasil.
— Do Brasil? Mas a senhora tem um sotaque esquisito!
Garota Dourada,
quando a gente migra não tem consciência que vai se tornar uma deficiente linguística.
Até hoje minha língua sogra não me entende tão bem como minha língua mãe.
E para falar a verdade, até minha língua mãe anda se distanciando de mim.
Outra vez, Vera Gata,
de férias no Brasil e já há um bom tempo fora dele, viajava para a praia com um casal de amigos e suas duas filhas pequenas, quando o tempo fechou.
Não fora, mas dentro do carro:
— Não fala essa palavra na frente das minhas filhas! — vociferou meu amigo.
A palavra em questão era buceta.
— Mas qual é o problema de falar buceta? — perguntei, um tanto confusa.
— Bia, você mora há muito tempo fora do Brasil e perdeu a noção do significado das palavras. Buceta é nome feio!
— Mas então você quer que eu use qual palavra?
— Xoxota.
Xoxota, gente? Xoxota é que é nome feio!
Pois é, Lígia,
será que ando mesmo esquecendo o verdadeiro significado das palavras?
Só sei que adoro falar palavrão.
Em tudo quanto é língua.
Principalmente depois que li sobre uma pesquisa científica que descobriu que falar palavrão faz bem à saúde.
Violência verbal ameniza a dor e previne a violência física.
Até fiz uma coleção de leggings para homenagear palavrão holandês.
Quem não gostou muito foi o professor do meu filho, que ligou aqui para saber que história era essa do menino ficar no recreio fazendo propaganda das criações da mãe e fazendo apologia de nome feio.
Aliás, Morena dos Olhos D'Água,
já ia esquecendo.
Muito cuidado ao copular com um gringo, porque você vai ter um filho gringo.
E vai chegar o momento em que você vai ter dificuldades para entender o seu próprio filho.
Mulheres de Atenas,
aproveitem que o Brasil é a bola da vez e vive um movimento de crescimento e novas oportunidades.
Convençam o gringo a ficar, abrir uma pousadinha ou um bistrô.
Porque aqui a coisa tá preta.
* Bea Correa é designer, diretora criativa da Mind What You Wear, e vive na Holanda desde 1992.


















QUERO DEIXAR AQUI UMA LETRA DE MUSICA QUE GOSTO E QUE SE PARECE ALGUNS REFROES MUITO PARECIDO COM QUE SUA MATERIA ESTA A DIZER... LEGIÃO URBANA RENATO RUSSO "QUASE SEM QUERER"...
ADOREI A MATERIA BOM SENSO DE HUMOR E É VERDADE TUDO QUE DISSE E QUERO SABER MAIS ... BEIJOS VIRGINIA VILHENA KOLMAN.
Muito bom!
Oi Béa, tudo bem?
Adorei!! Engraçada reflexão....
adorei o artigo bea! principalmente quando vc fala da crise de identidade e de não mais compreender até mesmo o próprio filho. Este estado eterno de estranhamento que está cravado em nós, que é ao mesmo tempo funny e trágico... Keep it up!
Muito bom Bia!
(Pra mim vc sempre será a Bia)
Sempre soube que você escrevia muito bem. E você tem razão, acho que não é hora de sair do Brasil. Meus amigos que emigraram para a Europa estão reclamando muito. Pela primeira vez é tempo de ficar.
Muitos Beijos!
Que baixaria! Artigo para blogs e facebook. A emissora holandesa está baixando o nível com essa coluna. Falar que mulher é produto brasileiro é uma ofensa para as mulheres e para os brasileiros em geral. Nós temos muitas outras coisas para nos orgulhar, principalmente no esporte. Falar que o Brasil exporta mulher equivale a prostituí-la.
Olá F. Carvalho,
fiquei chocada quando pesquisei imagens da mulher brasileira na Net,por isso escrevi a coluna, que é uma reflexão irônica sobre a visão que o mundo tem da mulher brasileira.
Um abraço,
Bea Correa
Muito bom maninha!
Oi Bia, ou melhor, Bêa!
Chorei de rir! Muito bom!
Ótimo, Bea/Bia, adorei!
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