Na verdade o tema seria mais adequado para o mês de dezembro, mas é que a minha coluna está no corredor da morte, por isso resolvi escrever em setembro mesmo. O governo está ameaçando cortar os subsídios para a Radio Nederland. Não quer mais saber de cigarras no seu reinado, só de formiguinhas. Mas e quando o inverno chegar, quem vai cantar e dançar para as formiguinhas?
Pois voltando ao assunto, passeando um dia desses num mercado de 'street art', deparei com uns meninos bonitos, afro-holandeses, vendendo uma camiseta grafitada com os dizeres: 'Zwarte Piet is Racisme' (Zwarte Piet é racismo).
Para quem não conhece, o Zwarte Piet é um personagem do folclore natalino holandês. Ele é o escravo, oops, o assistente do Sinterklaas, o Papai Noel holandês.
O Papai Noel holandês é diferente do Papai Noel dos anúncios da Coca-Cola. Dizem as más línguas que ele é que é o original, o que inspirou o Santa Claus americano.
Sinterklaas também é um velhinho de barbas brancas, mas veste uma roupa de bispo. E não chega de trenó, mas de barco, da Espanha. E não no dia vinte e quatro, mas muito antes, no dia cinco de dezembro, reunimos a família para esperar os ajudantes do Sinterklaas descerem pela chaminé, enquanto nos entupimos de letras de chocolate e porquinhos de marzipã.
Além de distribuir presentes e doces, a grande tarefa do Zwarte Piet é divertir a criançada. Quer dizer, aquelas que se comportaram bem, porque as desobedientes o Zwarte Piet põe num saco e leva para a Espanha.
Muitos adoram se fantasiar de Zwarte Piet, e olhe que não são só as crianças. Já na minha primeira festa de Sinterklaas, estranhei o fenótipo politicamente incorreto do Zwarte Piet. Ele é representado como a caricatura de um negro, com roupas de serviçal muito coloridas, cabelo pixaim, beiços grossos besuntados de vermelho e argolas nas orelhas.
Segundo os holandeses autóctones, o Zwarte Piet não é negro não: é que ele fica 'sujo' por causa da fuligem da chaminé. Vasculhando o passado obscuro do Zwarte Piet, descobri que ele provavelmente iniciou sua carreira como um diabo, depois tomou a forma de um mouro, e com a colonização do novo mundo foi ficando cada vez mais parecido com um negro africano.
Na minha primeira festa de Sinterklaas, ainda não sabia que a população holandesa se dividia entre autóctones e alóctones. E para ser sincera, nem sabia bem a diferença entre autóctone e alóctone. Não eram palavras muito usadas no Brasil e tive que recorrer ao dicionário.
Autóctone é aquele originário daqui. Alóctone é aquele que não é originário daqui. Mas na Holanda alguém é considerado oficialmente alóctone, mesmo tendo nascido e crescido aqui, quando pelo menos um dos seus pais é estrangeiro.
Também já reparei que o alóctone nascido aqui nunca se sente em casa. Se você perguntar se ele é holandês, ele vai titubear e provavelmente dizer que não, que é marroquino, turco ou surinamês.
A palavra 'allochtoon', alóctone em holandês, acabou ganhando sentido pejorativo, e já houve até um movimento em 2005 para aboli-la do dicionário holandês. Que fracassou, é claro.
Também não é a primeira vez que a tradição do Zwarte Piet gera controvérsias. Já faz cinquenta anos que ela é acusada de fenômeno racista e símbolo do imperialismo ocidental.
Em 2008 as artistas Petra Bauer e Annete Krauss resolveram reabrir a discussão durante a exposição "Be(coming) Dutch”, no Museu Van Abbe, em Eindhoven, organizando uma marcha de protesto contra o Zwarte Piet. Mas a marcha acabou sendo cancelada por causa das ameaças que o museu recebeu da extrema-direita e dos nacionalistas.
E como nosso governo anda caminhando cada vez mais pelas ruas da direita, dezembro vai chegar e todo mundo vai poder comprar sua fantasia e sua peruca de servente de Papai Noel holandês.
Mas fica aí a dica da camiseta 'Zwarte Piet is racisme' para presente de Sinterklaas.
* Bea Correa é designer, diretora criativa da Mind What You Wear, e vive na Holanda desde 1992.


































Adorei a matéria , é sempre bom conhecer um pouco mais da Holanda e dos holandeses , gosto muito de seu estilo , espero que sua coluna continue , bjs Bea
Muito boa matéria!
Bea, que pena que sua coluna está no corredor da morte. Espero que ela sobreviva! Você escreve bem pra caramba, e conta coisas muito interessantes pra quem não conhece a Holanda.
Bem, de todo jeito... Feliz Natal!... rsrsrs...
adorei o conteúdo e seu estilo. Congrats! sou novata no blog. No momento estou de férias e tô escrvendo no www.tripsdabeia.com. - beijos da beia e obrigada pela interaçāo.
Pobre de nós, alóctones!!!!! Gostei muito de seu artigo, muito esclarecedor!!! Ser chamado de estrangeiro aqui na Europa, é um xingamento!
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