Eu tinha vinte anos quando enfrentei a questão. Foi durante o primeiro curso de Português para Estrangeiros num instituto do Rio. O curso era experimental, eu, amadora, os alunos, cobaias. Contrataram–me... porque falava muito bem o inglês. A turma era de americanos: um estudante de música brasileira, uma enfermeira, um antropólogo, uma dona de casa e um missionário.
Livros, não havia, e eu improvisava regras, escrevendo no quadro, camuflando minha inexperiência. Como vai, como vão, quem é, quem sou, de onde são, de onde sou, obrigado, até logo, adeus. Tchau, era coisa de sulista.
Verbo ser: eu, tu, ele, ... Não cogitávamos em verbos sem o pronome tu. Hoje, eliminamos o tu dos livros para estrangeiros, uma complicação a menos. Então, logo percebi minha explicação confusa sobre o uso dos dois pronomes. You em inglês, é tu, você, o senhor, a senhora. Uma só palavra, enxuta, abrangente, sucinta, sem discriminação etária e genérica. Sempre apreciei a fórmula You.
- então, não havendo muita diferença entre tu e você, para que dois pronomes?
-a partir de que idade trato as mulheres por senhora?
Iniciou-se a devassa sobre uma gramática que eu usava automaticamente. Mesmo preparando as aulas, achava que uma simples tradução resolveria tudo, não colocando distância entre mim e a minha língua. Para estrangeiros desconhecendo línguas latinas, o Português consistia num grande desafio.
Contudo, tudo correu bem, so far so good, até à questão crucial. O verbo to be inclui o que em Português expressamos com ser e estar. Candidamente, formulei exemplos obscuros sobre a essência e a transitoriedade das coisas. Ao silêncio total, seguiu-se a avalanche de indagações:
- Qual é a diferença entre a Maria é bonita ou está bonita, não é subjetivo?- a dona de casa começou a guerra.
-Ela não fica ofendida se disserem que está bonita?
-Ah, se alguém tem o hábito de se casar muito, como essas artistas, ela é, ou está casada?
- E o Paulo, é doente, ou está doente? E se a doença durar muito?- indagou a enfermeira
- E a festa, onde é, ou onde está? Uma festa é uma festa, pode estar na tua casa ou na minha. E o circo, é ou está aqui?
- E se a tribo for nômade, como é que fica?- perguntou, aflito, o antropólogo.
-E por que Jesus disse: Pedro tu és pedra, e não tu estás pedra, a essência de Pedro era humana - esta bomba veio do missionário.
-E a canção do Tom, A Felicidade: ”a felicidade é uma gota de orvalho que brilha como uma pétala de flor ?”. Então, se o estar é temporário, e o ser é essencial, e a felicidade oscilando desse jeito, devíamos usar estar, e não ser, certo? - inquiriu o músico, dando um tom poético ao assalto.
Encarei a turma. Não, ninguém estava pretendendo ser engraçadinho.Empaquei, perplexa, perante a complexidade da questão. Prometi, ruborizada, me aprofundar na filosofia inerente à imanência e à temporalidade, na sutil fronteira que separa os conceitos. Investigaria a beleza da Maria, a doença do Paulo, e certamente, a mensagem para São Pedro. Jurei que levaria matéria documentada sobre o assunto. Sorriram, compadecidos com o meu embaraço.
Esses dois verbos ainda dariam o que fazer. Certa vez, um alemão, metido a linguista e a profundo, me acusaria de “estar”, mais do que “ser”, na relação. Pesquisava o “sentido do ser” em Heidegger, e acabou metendo os pés pelas mãos.
Aprendi duas lições dos episódios. Ainda que a língua materna faça parte da nossa essência, é preciso respeitá-la. E que, last but not least, nunca se deve brigar numa língua estrangeira. Para mim, aquela aula de Português foi o início da intrigante viagem de redescobrimento da língua materna.
* Júlia Abreu de Souza é tradutora, cronista e autora do livro didático 'Basiscursus Portugees:E isso aí!'






























muito engraçado
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