Anos atrás, eu estava num bondinho de Amsterdã, a caminho do cinema onde rolava um filme brasileiro e involuntariamente, ouvi a conversa de duas garotas brasileiras reclamando do tempo. O céu parecia mesmo um pano de chão, e a chuva não parava. As moças não sabiam o que fazer da vida. Ah, estou sem grana pra fazer compras, mas vamos olhar as lojas.- Não- respondeu a outra. Olhar lojas sem comprar, não dá, é triste. Conhecendo as dificuldades de um domingo sem sol e sal, não resisti e entrei na conversa, na pele de uma compatriota compadecida. Sugeri verem o tal filme no centro da cidade. Agradeceram com efusão. Na saída do cinema (o filme era ‘Central do Brasil’) as duas vieram me dizer comovidas. Que filme lindo, você salvou o nosso domingo!
Os trams de A’dam podem ser bastante folclóricos. No número 5, por exemplo, ouve-se diversas línguas numa mesma viagem. Português, então, nem se fala! Cada vez que entro, pelo menos dois passageiros estão falando a nossa língua.
Outro dia, no meio de uma conversa animada com uma amiga paulista, se meteu um rapaz de Goiânia querendo ser engraçadinho: cuidado, estou entendendo toda a conversa. O tram 5 é alegre e tem gente bonita. É o tram dos estudantes da Universidade Livre e do campus A Cidade das Corujas, em Amstelveen, próxima a Amsterdã.
Quando o bando de estudantes de vários tamanhos, cores, idades, e origens entra, instaura-se a balbúrdia: telefonemas, paqueras, namoros, discussões, e o ruído chega para ficar. Nas noites de quinta-feira, os passageiros são mais velhos, vindos dos concertos tradicionais da noite. Em geral, quando o concerto é bom, a animação também é grande e todos trocam impressões a respeito.
Na semana passada, no tram 13, passou-se outra cena curiosa. Uma mulher morena, gordinha, baixa, entrou, sentou-se, cruzou as pernas ostensivamente, tirou da sacola um estojo, e com enorme concentração, começou a fazer as unhas do pé.
Estarrecida, já que nem sentada quieta no sofá consigo fazer minhas unhas da mão, eu seguia os seus movimentos. Enquanto isso, o 13 foi se enchendo de gente, o tram deu a partida sacolejando, mas ela, sem retirar os olhos do trabalho, continuava a passar o esmalte vermelho morango, unha por unha.
Quando terminou, me olhou sorrindo como se agradecesse a atenção. Mas a operação não havia terminado. Ela calçou as sandálias, retirou uma pinça da bolsa, e com uma incrível habilidade manual - devia ser profissional do ramo- passou a remover os pelos da sobrancelha.
A essa altura quase todo o 13 acompanhava os movimentos. Num movimento que parecia orquestrado, quando se deu por satisfeita, ela se levantou, retirando do estojo polivalente vários cartões que começou a distribuir, entre os passageiros, fez sinal, deu um adeus e se foi. Em português e inglês vinha a publicidade: Manicure, maquiladora e tratamento geral de beleza. telefone ....... Marketing básico e perfeito. Mas abusado, com certeza.






























PARABÉNS JÚLIA.PUDE CONHECER MAIS UM POUCO DE AMSTERDÃ.
Hilário!
Submeter um novo comentário