Uma amiga minha reclamou porque a mãe comprou um IPad.
Para que a mãe, na idade dela, iria querer um IPad? Estaria ela numa crise de meia-idade tecnológica?
Pois eu disse para minha amiga que melhor a mãe dela comprar um IPad do que um túmulo.
Minha sogra comprou um túmulo. Ela está com câncer. Mas comprou o túmulo antes de ficar doente, com lugar para ela, para o marido e para a filha caçula.
Ela tem mais três filhos, mas disse que só comprou lugar extra para a caçula, porque esta é solteira e não tem filhos. E sofre de depressão.
Não sei se acho uma boa idéia dar um túmulo de presente para alguém que sofre de depressão. Não seria melhor presenteá-la com um vestido novo ou uma viagem?
Minha sogra já finalizou seu testamento. Escolheu a igreja e o pastor para a cerimônia. Selecionou em quais jornais os anúncios do seu falecimento devem ser publicados. E até já separou a roupa com que será enterrada.
A obsessão da minha sogra com os preparativos para o seu último grande evento social não é esquisitice de velha.
A última moda agora é planejar seu próprio funeral.
Segundo o site News of The World, a cantora Britney Spears teria investido US$ 37 mil como entrada para sua cerimônia funeral nos Estados Unidos.
As empresas funerárias estão incrementando seus serviços para conquistar mais clientes: No site monuta.nl, você pode escolher um caixão eco, classic, luxe, elegant ou trendy.
Hoje o finado pode fazer o cabelo, o pé e a mão antes de embarcar na grande viagem. Há tratamentos e maquiagem de rejuvenescimento póstumo, que deixam a pele mais macia e acetinada. E até preenchimento com silicone.
Mesmo já falecido, ainda é possível consumir bens de luxo.
No funeral do meu sogro, fiquei surpresa quando vi as limusines nos esperando para nos levar para o crematório. Aliás, foi a primeira vez que ele andou de limusine na vida (na vida?).
A designer holandesa Wieki Somers quer produzir objetos confeccionados de cinzas de corpos cremados. Sob o título ‘Natureza Morta’, ela está mostrando três modelos (inclusive uma torradeira) numa exposição no Museu Grand Hornu, na Bélgica.
Alegando 'falta de tempo', a designer produziu os protótipos com cinzas não humanas.
O design prima pela sustentabilidade, mas é feio de doer.E não sei se gostaria de comer a torrada feita na torradeira feita com a cinzas da minha sogra.
E por falar em design, já repararam como os túmulos são cafonas?
Quando minha sogra veio me mostrar a lápide que tinha escolhido para o marido, caríssima aliás, cheguei a cogitar em começar a vender design de túmulos no meu site mindwhatyouwear.com.
Tantos designers e artistas desempregados, mas tudo cinza nos cemitérios. Imagina se o cemitério virasse um parque de esculturas coloridas, como por exemplo o túmulo de Peter Giele desenhado pelo artista Joep van Lieshout?
Pois resolvi eu também enterrar meu preconceito com a morte e planejar meu funeral.
Quero uma festa. Com muita bebida e comida gostosa. Nada dessa história de café e cookies de supermercado, por favor.
O caixão deve ser o eco (se bem que o modelo trendy também é bem bonito...).
Não, não quero virar torradeira.
Gostaria mesmo é de uma escultura vermelha como túmulo. Uma mulher nua, deitada, com as pernas bem abertas. Foi nessa posição que vivi meus melhores momentos.
Queria que as pessoas rissem quando passassem pelo meu túmulo, já que ser engraçada, segundo meus amigos, sempre foi meu maior talento.
Meu marido desaprovou a escultura, e disse que não vai fazer de jeito nenhum minha última vontade.
Então, que esse artigo também valha como meu testamento.
* Bea Correa é designer, diretora criativa da Mind What You Wear, e vive na Holanda desde 1992.































Incrível como vc escreve c/ tanta personalidade, quem te conhece te reconhece no seu texto, será q podemos fazer um "refrescamento" na pele antes de planejar e gastar no funeral? rs rs Adorei!!!!!
Hahahahaha... Só vc mesmo hein Dona Bia? Continua punk! Saudades!!!
Beijo grande
Que bom Bea! continue escrevendo, é maravilhoso para a alma...
Maravilhoso Bia!Adoramos e já estamos na espera do próximo texto!
Morri de rir, Bia. Sem dúvida você tem mesmo muito senso de humor. Ainda nao pensei no meu funeral. Acho que vou deixar fazerem o que bem entenderem com minha ossada.
...E que as homenagens venham em vida. Parabéns, Bea, belíssimo texto!
Adorei Bea! Tem talento, continue, quem sabe vira escritora ainda? Que lindo aquele cemiterio com tumulo roxo. Tb quero ter um assim mas ainda tenho um certo pavor da morte. Na decada de 80 andávamos transitanto por cemiterios...
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