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Amsterdã, Holanda
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Coluna: Línguas maternas e ... madrastas

Data de publicação : 3 Setembro 2010 - 3:38pm | Por Júlia Abreu de Souza (Foto: Museu da Língua Portuguesa)
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Mr. Dobo era um engenheiro agrônomo tanzaniano com doutorado na Inglaterra, beirando os quarenta. O conhecimento do português era imprescindível para a sua função num projeto de irrigação em Moçambique. O inglês, que ele falava irrepreensivelmente, era a língua de comunicação do curso de imersão total que fazia. O cenário era o Tropen Instituut, em Amsterdã.

No ki-swahili, sua língua materna, falado no Quênia e Tanzânia - um idioma bantu com influências de árabe, português e inglês -, os substantivos são divididos em categorias de acordo com a origem: animais, minerais e vegetais.

Formal, sempre comparecendo às aulas de terno azul-escuro e gravata, ele formulava suas perguntas cuidadosamente. Tinha verdadeiro pavor em melindrar o próximo. Contudo, com as questões de gênero, no primeiro capítulo da imersão, que duraria quatro longas semanas, começaram os problemas.

Irrequieto, se remexendo na cadeira, ele ouvia de boca semi-aberta, as explicações sobre a regra básica a respeito dos nossos artigos definidos e indefinidos.

“Desculpe,” - interrompeu, temeroso - “gostaria de saber como uma porta ou uma mesa podem ser enquadrados em categorias tais como femininas, e um livro ou um banco, como masculinos. Qual é a lógica por trás desta regra?”

No fundo, lógica propriamente dita, não havia. A divisão do ki-swahili era bem mais cartesiana. A seguir, quando foi informado de que os nomes de países também obedeciam à regra, ele perdeu a elegância e se levantou, meio apoplético.

“Por acaso estará insinuando que o meu país, a Tanzânia seja feminino? Não é justo (it isn’t fair!). E por que o Brasil é um país masculino? Por que vocês puderam escolher?”

Foi difícil convencê-lo de que o inventor do Brasil foi seu Cabral, não tivemos opções de gêneros, assim como tantas outras; que ele não precisava levar a gramática para o plano pessoal, e que uma postura machista em relação a países seria incabível e linguisticamente incorreta. O melhor era se render às injustiças da gramática. Pelo resto do dia, Mr. Dobo permaneceu taciturno. Durante as próximas semanas, seu rendimento foi de sofrível para médio.

Porém, nos últimos dez dias, uma metamorfose ocorreu. Tal e qual a Emília, de Monteiro Lobato, que tinha nascido muda e engolido a pílula falante, Mr. Dobo passou a ficar desenvolto e fluente. Emergiu. Aí, o curso terminou e ele foi embora. Dois meses depois, recebo um belo cartão de Maputo:

“Dear Miss J.

Português é a sua língua materna, mas foi minha língua madrasta. Não a escolhi, tive que estudar para meu trabalho. Ela, e digo ela, porque a palavra língua é feminina em português (as mulheres falam muito!) era muito bonita mas não podia confiar muito nela. Era a língua de outro país, com regras diferentes de tudo o que eu tinha ouvido na vida. No final, acabou por me seduzir, eu já não me importava mais em obedecê-la, tornou-se uma madrasta gentil e doce.
Muito obrigada (a: senhora é mulher)

Lembranças do Engenheiro Benjamin Dobo.”

* Júlia Abreu de Souza é tradutora, cronista e autora do livro didático 'Basiscursus Portugees:E isso aí!'

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