Volto a Portugal e me sinto novamente como se estivesse em casa do primo. Me vêm reminiscências, fantasias, pessoas e imagens de um remoto passado. Casarios, comidas, cantigas, sons, sabores, sotaques, sobrados. Um Portugal de um Brasil de quando eu morava com meus pais num prédio de estilo português, em Botafogo, no Rio.
Ver senhoras idosas de preto sentadas em cadeiras, conversando ao ar livre, “tomando a fresca, num dolce fà niente de fazer gosto, cenário provavelmente em extinção.
Comer tripas, pato com arroz, cabrito assado, queijo de ovelha, aletrias, barrigas de freiras, ovos moles. Subir ladeiras, calçadas desenhadas de pedras, visitar igrejas barrocas, romanas, manuelinas. Entrar em pastelarias art-deco, bisbilhotar num armarinho (retrosaria) e deparar com um repertório de outrora, totalmente soterrado no baú da memória: aviamentos, barbatanas, bordados, dedal, debrum, fitas, fivelas, feltro, passamanaria, sianinha, soutache, tule, viés. De um Brasil de moldes, figurinos, e costureiras que vinham em casa provar os vestidos da mãe e das tias.
E sobretudo, o que mais me encanta, é estar numa Europa que fala a minha língua. Ainda que com outro sotaque. De ainda me surpreender com outras maneiras de exprimi-la. Em vez de dá licença, os portugueses perguntam delicadamente: Posso?
E o que dizer da expressão corrente, que inicia qualquer explicação: é assim. Onde fica a rua tal e tal? É assim: vira à direita e segue em frente. Vamos sair hoje? É assim, já tenho um compromisso.
Eles usam e abusam de um linguajar 'hipotético': não há mesmo hipótese de ver o show da Mariza, está lotado. Outra pérola: Se o jogador argentino falhar, o português poderá ser hipótese para a equipa.
E ser chamada de a menina, também é fixe (um barato). A menina não queria ver algum modelo? Aceito, apesar da evidente adulação. Ou será só um modo afetuoso de falar? Uma holandesa, estudiosa do Espanhol e do Português, opina sobre o dois idiomas: O Espanhol é forte, agressivo, rascante, imperativo. O Português é suave, meigo, e diminutivo: em lugar do dramático adiós, é adeusinho, em lugar de besos, é beijinhos. Em lugar de: dame lo, quiero é: posso? queria.
Então, para os brasileiros que moram fora do Brasil, uma ida a Portugal é um reencontro, uma catarse, uma terapia regressiva, uma (re)descoberta. Nada disso é novidade, mas eu só queria confirmar: é (mesmo) assim!
* Júlia Abreu de Souza é tradutora, cronista e autora do livro didático 'Basiscursus Portugees:E isso aí!'






























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