Segundo o dicionário, beata significa uma mulher excessivamente devota, ou que finge ter muita devoção, ou uma hipócrita. Beata é o nome do meu avatar no gleeden.com, um site de relacionamentos para pessoas em busca de aventuras extramaritais. Beata tem 45 anos, é artista/pintora e tem como parágrafo de introdução a máxima 'Durma com sua mulher, sonhe comigo'.
Nada mais frustrante do que ter uma boa idéia, mas abandoná-la porque alguém achou que não era tão boa assim, e depois ver outro alguém ter e realizar a mesma idéia, e ela se tornar um sucesso. E foi o que aconteceu com meu brilhante projeto de criar um dating site para pessoas casadas. Ele foi arquivado pela diretora da empresa onde eu trabalhava, porque segundo ela, alguém casado não precisaria de um dating site.
Nem preciso dizer que ela era solteira.
Pois um belo dia, abro o jornal e lá está, uma página inteira dedicada ao gleeden.com, o primeiro site internacional de relacionamentos extraconjugais. Iniciado em novembro de 2009, o site já tem mais de 500 mil membros!
Resolvi me inscrever também, para efeito de pesquisa, é claro.
Oba, no gleeden.com, mulher não paga! Parece que o público feminino ainda reluta em se filiar (somente 35% dos registros). E confesso que entendo esse receio.
Apesar do nome Gleeden resultar de uma combinação de glee (prazer em inglês) e eden (paraíso), a impressão que se tem é a de entrar num inferninho mesmo. Ou numa selva cheia de predadores famintos, onde você é a única caça. Sim, há outras fêmeas passeando na selva, mas você não as vê.
O Gleeden parece também um baile de mascarados, onde quase todos os convidados se escondem atrás da mesma máscara, já que poucos se arriscam a mostrar o próprio rosto no perfil público. Alguns guardam suas imagens no álbum privado, mas você precisa pedir permissão ao proprietário para vê-las.
No Gleeden você se comunica por mensagem ou chatting.
O chatting é gratuito, mas o cavalheiro tem que pagar quando envia uma mensagem para uma dama. O que me faz sentir uma prostituta de mensagens. Mas há outras ferramentas mais charmosas para chamar a atenção da presa: os botões crush alert (tenho uma queda por você) e o you are my favorite (você é minha favorita). E você pode mandar e receber presentinhos virtuais, que variam desde um beijo apaixonado (gratuito) até a chave de quarto de hotel 5 estrelas para uma escapada discreta (50 moedas gleeden).
Apesar de ter encontrado vários casados disponíveis interessantes no Gleeden, trair aqui na Holanda me parece bem complicado e caro. Este país, tão famoso pela liberdade sexual e pelas prostitutas expostas em vitrines, não tem motel!
Com motel quero dizer não a versão americana, aquele em que o protagonista dos road movies para para pernoitar. Mas o "nosso motel brasileiro", um hotel de curta estadia para encontros sexuais, geralmente clandestinos.
No Brasil trair é um direito de todos.
Há motéis para todos os estilos, gostos e bolsos. O Farao's possui suítes luxuosas com decoração em estilo egípcio. O L'Essence conquista seus clientes com os benefícios da aromaterapia. E o Ninja oferece o apartamento rapidinha, uma hora, por apenas 9,90 reais.
Os móteis são anunciados em outdoors gigantescos, para todo bom cristão ver, e suas fachadas extravagantes há muito tempo fazem parte do cotidiano arquitetônico brasileiro. Similar ao motel brasileiro parece ser encontrado somente no Japão, o love hotel.
Será que foram os imigrantes japoneses que trouxeram na mala a idéia para o Brasil, junto com o sushi e as havaianas?
A ausência de móteis na paisagem holandesa, seria culpa do calvinismo?
E alguém interessado em abrir comigo o primeiro motel dos Países Baixos?
* Bea Correa é designer, diretora criativa da Mind What You Wear, e vive na Holanda desde 1992.

































Idéia para atrair clientes: 20% de desconto na compra de uma strippenkaart, serviço de babas incluído no preco a partir de duas horas e batatas fritas no menu do serviço de quarto.
Gostei do Artigo. Comecou no Gleeden e terminou no Motel!Safadin;-)
Adoro os temas que vc escolhe e o sentido de humor que os abraça. Só a Bionça mesmo!
Bea, seu artigo é impagável - texto livre, solto e direto. Amei !
Se levar o projeto do motel adiante, conte comigo ! eheh
Beijo!
Acabas de encontrar um sócio. Quantos florins... ops, euros... são necessários para o empreendimento? Mas antes uma pergunta: há público para os serviços de um motel?
Acho que deve ter público sim, encontrei vários holandeses ou estrangeiros residentes na Holanda.
E geralmente ninguém quer trair no próprio ninho..
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