“O México já conseguiu patentear a primeira vacina contra o uso da heroína e estamos trabalhando para mais”, disse o secretário de Saúde mexicano Salomón Chertorivski na semana passada durante a apresentação da Rede de Transferência de Tecnologia para o Atendimento a Vícios.
Há décadas os cientistas buscam vacinas contra a heroína, a nicotina, a cocaína e até contra o uso do álcool. O princípio do fármaco encontrado é que o corpo crie anticorpos que rodeiem as moléculas da heroína para que estas não cruzem a barreira hematoencefálica, ou seja, que o sangue não as leve ao cérebro. No caso da nicotina, cocaína ou álcool se usaria o mesmo princípio e a única coisa que mudaria seria a substância contra a qual se desenvolve a vacina.
Faz dez anos que o Instituto Nacional de Psiquiatria do México e a Secretaria da Saúde têm uma equipe pesquisando e experimentando em animais as vacinas que possam impedir o vício e a síndrome de abstinência.
A heroína é a mais terrível das drogas pesadas. Os efeitos num viciado são muito diferentes dos efeitos em alguém que experimenta a droga pela primeira vez. Os viciados necessitam doses cada vez maiores e mais frequentes para obter o mesmo efeito de quando se iniciaram no consumo, do contrário apresentam grave síndrome de abstinência, que consiste de calafrios, vômito, respiração agitada, olhos lacrimejantes, coriza, suor, hiperatividade, sentido de alerta exacerbado, aumento do ritmo cardíaco, febre, pupilas dilatadas, tremores, dor muscular, inapetência, dor abdominal, diarreia, paranoia, psicose e um mal estar tão terrível que é quase impossível suportar, por isso a grande dificuldade em deixar a droga.
Bloqueio do prazer
A vacina, em resumo, tenta evitar que a pessoa desenvolva um vício e, no caso da heroína, que apresente crise de abstinência. O cerne da vacina é bloquear o prazer. Ou seja, que por uma reação química no sistema nervoso o consumidor não obtenha nem o estupor, nem o relaxamento, nem as sensações agradáveis que a heroína dá. Como se diz no México, ‘que ya no tenga chiste’. Se não há recompensa pela droga, tampouco há o desejo de consumi-la ou de aumentar a dose.
Para que a vacina funcione, os consumidores devem estar dispostos a aplicá-la e a entrar num programa multidisciplinar de desintoxicação. Um viciado consome heroína de forma compulsiva e a vacina evitaria isso, uma vez que o corpo reporia as endorfinas perdidas e criaria uma espécie de anticorpo que bloqueia a substância. A heroína seria avaliada pelos linfócitos como se fosse um vírus, uma doença, e a vacina cria os anticorpos.
Adeus às agulhas
O melhor de tudo é que a vacina seria administrada por via oral, afastando o viciado de todo tipo de seringas.
Segundo o Instituto Nacional de Psiquiatria do México (INP), a vacina já está pronta para ser submetida a estudos clínicos com humanos. Anteriormente já se demonstrou sua eficácia em testes realizados com ratos. O grande problema é que, por enquanto, a vacina contra a heroína é extremamente cara. Agora os pesquisadores buscam fontes de financiamento e uma maneira de baratear os custos para produção industrial.
De acordo com a diretora do INP, Elena Medina Mora, “a vacina não será a solução para os vícios”, é apenas uma das formas para se enfrentar o problema:
“As vacinas são apenas uma das várias estratégias que existem para combater o vício, que no México cresce de maneira alarmante. O atual governo federal reivindica esta realização, quando na verdade é um esforço interinstitucional de décadas. Também é preciso reconhecer o trabalho feito em 1974 pelo dr. Charles R. Schuster, que foi pioneiro neste tipo de pesquisa.”















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