Vinte anos de conflitos deixaram cicatrizes na população da Caxemira. Não apenas as cicatrizes das balas e estilhaços de bombas de gás lacrimogêneo, mas as cicatrizes de conviver com o medo diário, a insegurança e a perda insuportável.
Há apenas 20 psiquiatras e poucos psicólogos trabalhando numa região com quatro milhões de pessoas. E a maioria deles está localizada na capital, Srinagar. Isso faz com que a grande parte das pessoas que habitam as áreas rurais não tenham acesso a tratamento.
Dr. Arshid é um psiquiatra da Faculdade Estatal de Saúde Mental em Srinagar. Ele diz que há poucos dados sobre o crescimento dos problemas de saúde mental na Caxemira desde o início do conflito, mas evidências empíricas - o que ele e seus colegas de profissão têm presenciado nos últimos anos – com certeza apontam para um aumento.
Suicídio
“De acordo com algumas pesquisas, a região da Caxemira tinha a menor taxa de suicídio do mundo”, diz ele. “O equivalente a 0,01% da população. De fato não existia uma palavra que descrevesse suicídio em nossa língua. Mas agora, se você visitar um hospital em Srinagar, os médicos irão dizer que estão vendo diariamente de quatro a seis tentativas de suicídio... e a cada sete pessoas que você tenta salvar, uma consegue se suicidar.”
Roupa Suja
Dr Arshid diz que o conflito é direta e indiretamente responsável pelo aumento das taxas de suicídio, depressão, psicose e abuso de drogas. “Costumávamos ter uma sociedade em que as mulheres iam ao rio lavar suas roupas e lá podiam lavar toda a ‘roupa suja’. Elas podiam falar sobre seus problemas na família e na sociedade, e juntas podiam sugerir soluções e dar apoio umas às outras. Mas agora, com o conflito, ninguém confia mais no outro.”
Dr Muzaffer Khan está visivelmente cansado. Ele saiu de sua casa, nos arredores de Srinagar, às 5 horas da tarde para tentar chegar à cidade antes do toque de recolher. Nestes últimos três meses, a Caxemira foi fechada devido a toques de recolher impostos pelas tropas de segurança, e Dr. Khan estava preocupado com seus pacientes, que ele não conseguiu ver. Já está anoitecendo, mas ele não teve tempo de comer desde o café da manhã. Ele corre de sua clínica privada para a clínica de tóxico-dependência onde trabalha e em seguida dirige 15 quilômetros até Srinagar para uma sessão de aconselhamento em um lar para meninos órfãos.
Lar de garotos
Um dos meninos na sessão, Aurangzeb, tem 17 anos de idade. Ele tinha cinco quando seu pai foi envenenado por uma mulher de sua aldeia, por ser informante da polícia. Com uma voz tímida, Aurangzed, diz para o médico que quando crescer vai matar a mulher que envenenou seu pai. Mas, por enquanto, ele se contenta apenas em bater nos filhos dela toda vez que visita sua família na aldeia.
Quando peço ao médico para que faça uma estimativa sobre quantas pessoas na Caxemira têm problemas mentais, ele vira seus olhos melancólicos e diz instantaneamente, “quase todas elas.”
“Inclusive você?”, eu pergunto. “Sim, inclusive eu, meus amigos, minha família. Todos nós vimos e presenciamos coisas que voltam à memória cada vez que testemunhamos novos casos de violência aqui.”














Submeter um novo comentário