O mundo acompanha atento os passos da China rumo à consolidação como grande potência. O país já alcançou o quarto lugar entre as economias mundiais, atrás apenas dos Estados Unidos, Japão e Alemanha, e a previsão é de que consiga a terceira posição até o final de 2008, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Apesar do crescimento econômico galopante, a China ainda é uma nação em desenvolvimento, com grandes desigualdades regionais e sociais.
Luiz Sammartano
O sociólogo Xulio Ríos, coordenador do Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional, com sede na Galícia, Espanha, e diretor do Observatório da Política Chinesa, diz à Radio Nederland que nos últimos anos a China vem sendo sobreestimada por seu desempenho econômico. De acordo com o especialista, o país é bastante frágil e leva a análises equivocadas, principalmente por ser o mais populoso e ter um dos maiores territórios do planeta.
Na China eu digo muitas vezes que há como três séculos: há o século XXI, que está na costa, onde vive aproximadamente 30% da população, os núcleos urbanos estão muito desenvolvidos e o campo está em condições muito mais favoráveis que em outras regiões do país. A zona central e oeste estão muito menos desenvolvidas, mas ainda há uma diferença de aproximadamente 30, 40 anos entre os núcleos urbanos do centro e a região oeste, onde há lugares que estão praticamente no final do século XIX.
Desenvolvimento humano
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), usado pela ONU para medir o bem-estar social da população, mostra que em 2007 a China ocupou o octagésimo-primeiro lugar do ranking mundial, atrás de Belize e República Dominicana. A situação é bem diferente de potências como o Japão, em oitavo lugar, os Estados Unidos, em décimo-segundo, e a Alemanha, em vigésima-segunda posição.
O especialista em assuntos chineses explica que a situação atual da China se deve ao modelo de desenvolvimento aplicado nas últimas três décadas. Investimento externo, mão-de-obra barata e produção dedicada à exportação foram os três pilares da política econômica chinesa, o que permitiu o crescimento do país, sem levar em conta as questões sociais.
Jiang Zemin
Além das medidas implementadas por Deng Xiaoping durante a reforma e conseqüente abertura da China ao mercado mundial, a partir de 1978, Xulio Ríos atribui a Jiang Zemin, líder máximo do Partido Comunista Chinês (PCC) entre 1993 e 2003, a responsabilidade pelo aumento dos desequilíbrios no país asiático.
Qualquer pessoa que visitasse a China podia comprovar como a palavra de ordem dos dirigentes chineses era primeiro eficácia, depois justiça. O importante era o crescimento, a justiça social tinha que esperar um melhor momento. E isso foi o que provocou as grandes desigualdades. Nesta época há um crescimento espetacular da economia em termos gerais, mas a qualidade desse crescimento é muito inferior e, portanto, gera muitos desequilíbrios.
Êxodo rural
Com a ênfase no desenvolvimento das grandes cidades ao longo da costa, banhada pelo Mar da China Oriental, o analista internacional conta que houve um aumento do fenômeno da migração do campo para os centros urbanos, o que esvaziou as zonas rurais e provocou o aparecimento de bolsões de miséria nas periferias das principais cidades.
Mesmo nas zonas mais desenvolvidas do país, na região costeira, a pobreza, que era um fenômeno praticamente desconhecido, há alguns anos vem crescendo. Podemos afirmar que, enquanto nas zonas rurais a pobreza diminuiu de forma significativa nos últimos 30 anos, passando de 250 milhões de habitantes para aproximadamente 20 milhões, nas grandes cidades está surgindo uma grande pobreza que é muito mais difícil de combater e que atinge cerca de 15 milhões de pessoas.
Comunismo X capitalismo
A pergunta que o mundo se faz é de como uma nação governada por um partido comunista há quase 60 anos opta por uma política econômica capitalista. Xulio Ríos esclarece que a vontade de voltar a ver o país como uma liderança mundial, seja pelo governo ou mesmo pela população, fala mais alto.
A perspectiva do atual processo não é tanto uma questão ideológica, mas se a política atual, independentemente se é desenvolvida por uma dinastia comunista, ainda que a sua política não tenha nada a ver com o comunismo, nem mesmo com o socialismo, possa ser o instrumento para recuperar essa normalidade histórica que foi interrompida no final do século XIX. A ambição histórica de situar a China no centro do sistema internacional vai contar com um apoio popular importante.
O Partido Comunista Chinês sabe que os resultados no âmbito social foram piores do que o esperado e que movimentos populares podem surgir a qualquer momento. Segundo o especialista em política chinesa, durante as sessões da Assembléia Popular Nacional, em março, o primeiro-ministro, Wen Jabao, na necessidade de impulsionar programas sociais de grande alcance.


























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