“Quando as pessoas me encontram nas ruas de Hilversum e ficam sabendo que sou candidato a vereador eles ficam boquiabertos”, afirma Fábio Lima, de 21 anos. A surpresa se dá não apenas por ele ser jovem, mas também por morar há apenas cinco anos na Holanda.
De fato, não é preciso ser holandês para votar ou ser eleito nas eleições municipais, marcadas para 3 de março. Basta ser maior de 18 anos, morar legalmente no país por mais de cinco anos e ser membro de um partido político. A regra é a mesma para os eleitores, excluindo-se a necessidade de estar filiado a um partido.
Funcionamento
A câmara municipal holandesa estabelece as linhas gerais de uma prefeitura e fiscaliza o trabalho dos secretários e do prefeito. Também é função do vereador participar das reuniões da câmara e ler toda documentação relacionada com a prefeitura, além de precisar estar a par de tudo o que acontece na cidade.
“O trabalho de vereador aqui em Hilversum é participar semanalmente de uma reunião na câmara municipal, além das reuniões internas, com a sua bancada, com seu partido”, explica Lima.
O vereador deve exercer o cargo no seu tempo livre. Além de disponibilizar para a política o tempo que teria para o esporte ou a família, por exemplo, não há remuneração para esse trabalho, apenas uma ajuda de custo. "As pessoas que se candidatam estão ali por uma causa e não pelo dinheiro como é muitas vezes no Brasil”, conclui Lima.
Talvez seja esse o motivo de os partidos políticos terem dificuldades em recrutar candidatos para essa função.
Integração
A falta de um salário não assustou Cristina Van der Linden-Canêdo. A brasileira, que há 21 anos vive na Holanda, é candidata a vereadora em Almere. Canêdo ajudou a fundar o partido local e diz estar trabalhando diariamente em sua campanha. “Tenho grandes chances de ser eleita, já que sou bastante conhecida por aqui”.
Canêdo orgulha-se de envolver-se na política e se sente bem integrada na cidade onde vive: “Todos têm chance na Holanda. Estudei o idioma, fiz um curso profissionalizante, tenho meu próprio negócio, além de ter ajudado a fundar o partido pelo qual agora sou candidata a vereadora.”
Já para Fábio Lima, a candidatura é a concretização de um sonho. “Quando eles me abordaram com essa proposta eu fiquei muito feliz. Eu não esperava que um dia eles fossem me chamar, que veriam em mim um potencial para ajudar o partido”. Lima entrou na política aos 16 anos de idade, quando ainda morava no Brasil.
"Direito de reclamar"
Em geral, não há muito interesse na política local. De acordo com o instituto de pesquisa TNS/NIPO apenas 49% das pessoas com direito a voto devem comparecer às urnas. Entre os brasileiros, no entanto, há aqueles que gostam de exercitar a democracia, mesmo que o voto não seja obrigatório. O que os motiva a ir às urnas?
O analista financeiro Cleber Santos, que há nove anos vive na Holanda, vai votar pela primeira vez em uma eleição holandesa: “Agora que despertou meu interesse em votar e participar das atividades da região onde eu moro.”
O interesse de Santos surgiu do desejo de conhecer mais a sociedade em que vive: “Com o tempo, eu descobri que a Holanda não é um país liberal, mas tolerante. E existe uma grande diferença entre ser tolerante e liberal. Quero me envolver para entender melhor essas diferenças”.
“Eu acredito que a gente é responsável pelo nosso voto e também pelas mudanças que acontecem no lugar em que a gente mora”, afirma a historiadora e ativista política Alda Cotta.
“Como cidadã, acompanho a política e voto para ter o direito de reclamar com conhecimento de causa caso não concorde com as políticas implementadas. Ao votar você é responsável por quem elegeu”, acredita Alda Cotta.















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