Para quem acha que as mudanças climáticas acontecerão em um futuro distante, basta olhar para a América Central: sua população lida com isso diariamente. A temperatura média subiu, mas a diferença entre os extremos é um problema mais urgente. Uma reportagem do Panamá e El Salvador como prefácio para a conferência sobre o clima em Copenhague.
Cor Doeswijk e Thijs Westerbeek van Eerten
No Panamá e em El Salvador as consequências das mudanças climáticas são gritantes. Colheitas se perdem por muita ou pouca água. As estações estão tão confusas que os fazendeiros não sabem mais quando devem semear, lavrar ou usar fertilizantes. Ilhas habitadas inundam regularmente. Em resumo, o clima já não é confiável.
Segundo Miguel Ramos, morador do interior de El Salvador, o clima antigamente era previsível. Mas nos últimos 20 anos tornou-se errático.
“Agora acontece de, no meio da estação de chuvas, passarmos até duas vezes por um período de seca. Por causa disso temos que semear várias vezes para ter o que comer. O que você semeia em terrenos altos seca e em terrenos baixos apodrece por causa do excesso de água. O gado também morre de fome, sede e calor. Vemos vacas procurando a sombra já às 10 horas da manhã, se houver alguma árvore por perto, porque elas também desapareceram.”
Para a população as coisas também mudaram, diz Ramos. Antes ele e sua família trabalhavam das 6 horas da manhã até 3 ou 4 horas da tarde. Agora isso não é mais possível por causa do calor. Para conseguir fazer alguma coisa, eles começam a trabalhar já às 5 da manhã, mas por volta das 10 horas o dia de trabalho já acabou, porque o sol é forte demais.
Mangue
Flor Rivera também já não consegue mais lidar com o clima. Ela mora na costa do Oceano Pacífico em El Salvador e tem problemas tanto de seca como de inundações.
"Meu marido é pescador e pega caranguejos no mangue. Mas como a região de mangue está cada vez menor por causa do aumento do nível do mar, e a água salgada chega cada vez mais em direção à terra, ele pega menos e menos caranguejos.”
Flor tenta resolver o problema produzindo alimentos para sua família de outra maneira: “Para compensar, estamos plantando um pouco de milho e feijão em nosso quintal e em terras arrendadas. Mas no ano passado perdemos tudo por causa da enchente e este ano há tanta seca que quase nada cresceu. E isso significa fome.”
Mudança
Gilberto Arias é um dentre seis caciques de Kuna Yala, região autônoma dos índios Kuna na costa caribenha do Panamá. A maioria dos Kuna mora em ilhas baixas e vive da pesca e do turismo. Nos últimos anos aconteceu muitas vezes do mar subir tanto que as ilhas ficaram totalmente inundadas. Como consequência, não havia mais madeira seca para cozinhar. Muitos querem se mudar para o continente, mas isso vai contra séculos de tradição.
Em sua própria língua, o Kuna, traduzido depois para o espanhol por um intérprete, Arias tenta explicar a situação ao repórter:
“Nosso Deus nos deu ouro, prata, petróleo, e nós, se tiramos isso da terra sem cuidado, mudamos o ambiente. Por exemplo: você tem um gravador. Se ele quebrar e você não souber como consertar, mas mesmo assim tentar, provavelmente vai tornar a situação ainda pior. Isso também acontece com a natureza. Nós a recebemos mas se a modificarmos com desmatamento e fazendo o que é proibido, como criar vidas com clones, queremos ser iguais a Deus e isso desperta a sua ira. Agora temos que aceitar as consequências destas ações.”
Explicações deste tipo para as mudanças climáticas são frequentemente ouvidas na América Central. A população mais pobre, que sente na pele as consequências, muitas vezes não sabe que a causa é o aquecimento global. Muito menos a relação com as emissões de CO2. E a conferência sobre o clima em Copenhague? Nunca ouviram falar.

































Submeter um novo comentário